Publicado por: Eduardo Bezerra | Julho 31, 2013

Por que é fácil ser político no Brasil?

Não acredite na falácia de um político quando ele diz que é difícil sê-lo no Brasil. Balela. É facílimo. Primeiro você tem que separar a massa que se mete em política partidária. Só um pedaço muito pequeno daqueles ali é político, o resto é politiqueiro, massa de manobra. E isso já reduz muito o espaço. Há o babão, o cabo eleitoral, o “estrategista”, o assessor de porra nenhuma. Para cada tubarão há uma fauna simbiótica enorme. É só prestar atenção no conjunto que se agrega ao redor de um candidato.

Mas esse não é um texto sobre o político, mas sobre o alvo do político: o povo. Evitei fazer este texto durante a visita do Papa porque é muito feio falar de visitas com a visita em casa, não é? Na realidade, o problema é a alma histérica que toma da maioria das pessoas. Algumas delas até de maneira surpreendente.

É fácil ser político num país sem memória. A grande qualidade eletiva de um político no Brasil é seu carisma. Vamos à história. O que elegeu Collor? A imagem que foi criada ao redor dele. Ninguém sabia quem ele era, mas havia uma imagem extremamente carismática. O cara de gestos fortes, sorriso largo, jovial. Lula só passou a ser presidenciável quando deixou de ser o sapo barbudo e se transformou no Ursinho Pooh. Alguns dizem que foi por conta do acordo com os grandes capitalistas. Para ser presidente ainda é preciso ter voto e o voto é do povão. Dilma só passou a ter chances quando tomou um banho publicitário. Humberto Costa, nosso exemplo local, apesar de um político com inúmeros recursos é péssimo em imagem e interação com as pessoas. Resultado: perde eleições majoritárias com muita facilidade.

O brasileiro é igual a mulher de malandro. Gosta que digam o que se quer ouvir sem se importar com as atitudes. Um sorrisão, um abraço, aceitar o seu presente com festa, descer de carro pra falar com o pessoal, quebrar protocolo diplomático? Poxa… Tudo isso é motivo pra uma comoção sem precedentes. E se a mídia estiver do lado e ajudar a construir a imagem, aí é o céu. É eleição certa.

Não quero dizer que o Papa tem esse comportamento de hoje. Pelo contrário, isso é até natural nele. Quando arcebispo em Buenos Aires, andava de transporte público. Que bom. Mas o que me importa para avaliar o elemento é a história. E aí é daí que vem a memória. Simplicidade pode dizer pouco, dependendo do fim para o qual trabalhe. E hoje Jorge Mario Bergoglio é Papa e ser Papa é mais político que religioso.

Assustei-me com a declaração dele de que “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?” Muita gente comemorou como um avanço da Igreja. E, por incrível que pareça, a manifestação mais interessante foi a do deputado Pastor Marco Feliciano. “Também concordo que as igrejas estejam abertas para receber os gays que procuram Deus, aliás isso sempre foi feito pela igreja evangélica. A imprensa só deveria ser mais honesta e colocar com letras garrafais que, entretanto, o Papa disse que a igreja não muda seus posicionamentos. Ou seja, ela ama o pecador mas não ama o pecado. Aceita o homossexual, mas não aceita o ato homossexual. A igreja não muda o que a bíblia diz. Ao fazerem uma matéria com o tema que fizeram a mídia é desonesta, dá-se a entender que o Papa liberou o que a bíblia proibiu”. Feliciano é um imbecil, mas foi coerente.

É interessante porque, quando foi arcebispo de Buenos Aires, suas palavras não foram tão benevolentes. Sobretudo quando você considera que estes que você não pode condenar também são capazes de “ferir gravemente a família”, de colocar “em jogo a vida de tantas crianças que serão discriminadas de antemão, privando-se do amadurecimento humano que Deus quis que se desse com um pai e uma mãe. Está em jogo o rechaço direto à lei de Deus, gravada, ademais, nos nossos corações.”

É pesado e contraditório. O Papa foi político no Brasil. Foi pouco líder religioso e muito político. Deixou em Roma os dogmas. E foi sábio. Ele acompanhou de lá o caos social no qual o Brasil está imerso, a rejeição a todo e qualquer gasto público que não seja com serviços essenciais. Ele viu a repercussão dos gastos com a Jornada. E sabe que o católico brasileiro é pouco dado aos dogmas e tem uma afeição sem fim pelo pecado. O católico brasileiro talvez seja o menos religioso do mundo. Ele sabe que a maioria deles não tem resistência à união civil entre pessoas do mesmo sexo ou a legalização do aborto. E foi habilidoso em conduzir este processo. Foi um exemplar chefe de estado.

A fala do Papa que mais gostei citou o trecho do Evangelho de Mateus (7:1-5): “Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês. “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.”

Porque é fácil falar da corrupção alheia quando a sua trave está em negócios suspeitos mundo afora e que agora a gente conhece alguma coisa. Os escândalos financeiros. Quando seus sacerdotes estão metidos em casos de pedofilia e escândalos sexuais diversos. Quando se descobre vínculos da Igreja com governos de párias, como a relação de Pio XII com o nazismo/fascismo, a perseguição de João Paulo II / Ratzinger a Dom Hélder Câmara e até do próprio Bergoglio com a ditadura argentina. Prefiro ficar com o próprio Dom Hélder ao afirmar que quando se aponta o dedo para alguém há três apontando pra nós.

Mas o Papa não feriu seus princípios, não mudou de opinião nem traiu a Igreja em nenhum momento. Não houve avanço nem retrocesso. Ele não seria eleito para mudar o rumo das cosias. A Igreja precisava de um comunicador e conseguiu um. Porém os sorrisos apagam tudo. E é por isso que é tão fácil ser político no Brasil. Nossas eleições mostrarão.


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