Publicado por: Eduardo Bezerra | Julho 26, 2013

Quando a humanização sumiu da saúde pública…

Já percebeu que desde que eclodiu a guerra entre os médicos e o governo federal a humanização sumiu de cena? Percebeu a ausência de discussões sobre o Sistema Único de Saúde? Percebeu que tudo, de uma hora pra outra, passou a se resumir em ter a medicina no SUS ou não??? Pozé… É assim que a coisa está se dando. Um governo atabalhoado e atormentado por um país em crise social e uma categoria que tenta segurar de todas as formas uma hegemonia mesquinha e de cunho individual, corporativo. Está sim. A coisa está bem polarizada.

É engraçado porque toda vez que um médico vem falar com você sobre o que está acontecendo e o que a Dilma quer fazer com eles, em meio a uma síncope nervosa vem todo um processo já conhecido. Primeiro, todos os argumentos dados por eles cabem num ambiente de hospital. Atenção primária só aparece enquanto detalhe. Dá vontade de gravar e mostrar a eles de maneira comentada. Depois, parece que todos os problemas em questão se resumem em dinheiro e infra estrutura.

Pois deixe eu ir adiante. Lembrar uma coisa. Antes do usuário (e é bom que aprendam que quem usa o SUS não é paciente, é usuário. Não é cliente, é usuário) chegar até a alta tecnologia, ele tem que sentar de frente pra um profissional que vai utilizar única e exclusivamente o seu conhecimento para o primeiro contato. Parece pouco e só um detalhe, mas não é. É essa escuta que vai determinar que tecnologia será usada, para qual especialista será encaminhado, que exames serão solicitados, para qual serviço será encaminhado, qual a suspeita que dá suporte ao que vem depois. Mas isso não é preocupação da luta dos médicos. Não que eu tenha escutado até o momento.

Porque falta uma coisa chamada autocrítica. Saber que existe uma contribuição a ser dada pelo profissional no respeito ao usuário. É preciso desfazer altares. Acabar com essa história de que o médico é o profissional que mais estuda. Deixa eu lembrar outra coisa. Todo e qualquer profissional de saúde estuda muito. Todo e qualquer profissional de saúde vira noites em plantão. Todo e qualquer profissional de saúde se acaba em especializações, mestrados, doutorados, residências, atualizações, o que seja. 

Isso se dá porque a humanização no Sistema Único de Saúde parece conversa de hippie maconheiro. Todo mundo diz que dá valor, mas pouca gente o faz como prioridade. Tive a possibilidade de trabalhar com isso em uma oportunidade mas na hora da contenção de gastos, de maneira muito simbólica, foi a primeira política a ser limada. Humanização não tem nada haver com a animalização do profissional. Tem haver com a forma robotizada e automatizada que estamos lidando com o cidadão. O respeito que não temos a ele.

E médicos, que falam da saúde na atenção básica como a antessala de um hospital, deveriam ter uma postura mais respeitosa. A arte de curar é divina. Evitar a necessidade de cura é supremo. Por isso falamos tanto em interdisciplinaridade e horizontalidade em um SUS que é medicocentrado. Que tal o governo federal tomar uma atitude de verdade em relação a esta medicalização? Que tal começar a financiar equipes de atenção primária ainda que não tenham médicos no quadro? Financiar de verdade! Que tal valorizar as categorias e potencializar o trabalho de prevenção e promoção, e não fazer de conta? Que tal repensar um sistema de saúde que não se baixe tanto a uma categoria que, mesmo tendo tudo, acha que não tem nada? Uma política de saúde de verdade consegue isso bem mais rápido. 

É óbvio que as estruturas de saúde precisam de infraestruturas e todos os profissionais serem valorizados pela importância que tem para o local onde estão. Mas eu digo uma coisa. Melhorar infraestrutura para o nível de profissionais que temos, de todas as categorias, é a mesma coisa que tirar um graveto de um chimpanzé e dar um fuzil. O estrago é o mesmo. Já vi muito isso por aí. Profissional ruim em estrutura boa é a sucursal do inferno.

Quando essa lógica começar a ser desfeita, aí sim eu vou acreditar que algum governo está realmente querendo fazer algo pela saúde pública. Por enquanto não. É só pendenga.


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