Publicado por: Eduardo Bezerra | Abril 20, 2013

Os dogmas, o deus do impossível e a síndrome do super- homem

Comecei a me interessar por religiões muito cedo. E, apesar de minha origem católica tradicional, tive a curiosidade de ler a Bíblia. Uma prática muito pouco exercida pelos subordinados de Pedro. Tive a oportunidade de ler ainda a Torá, o Alcorão e até o Livro dos Mórmons. Aprofundei um pouco mais no universo das religiões afro e, por admiração e proximidade, da doutrina espírita. Nada disso me conferiu exclusividade com nenhuma delas. Longe disso. Causou-me uma necessidade cada vez maior de afastamento. Ainda assim, apesar de todos os questionamentos, também não me tornou ateu.

Tenho a grande dificuldade em aceitar o deus-fenômeno. Não o fenômeno natural da mínima coisa, mas aquele dedicado ao impossível. A necessidade de um grande feito como sinal de suficiência. O fundamento da fé. Fé que é algo me incomoda desde sempre. Na realidade, tudo o que me afasta da possibilidade do porquê me causa desconfiança e estranheza. A história do mundo demonstra que o impossível é o possível adiado. Mas o ser humano se afasta disso de maneira até covarde. Abandona o impossível quando ele é alcançado. Mas não cientificamente. Cegamente seria mais próprio. Pois quando o conhecimento lança luz sobre algo, o ser humano “crente” fecha seus olhos imediatamente.

As religiões, sobretudo cristãs, têm necessidade deste espetáculo. Da ressurreição seguida de uma elevação apoteótica aos céus. Da criança iluminada que chega à Terra pelo ventre de uma virgem que continua virgem. Nunca me senti contemplado com este deus espetaculoso. Sempre gostei mais da ideia de infinito. Daquilo sem começo e sem fim. Este é o único mistério inexplicável a me fascinar verdadeiramente. Nunca precisei da virgindade de Maria simplesmente por achar este um dos dogmas mais desnecessários já criados. Qual o verdadeiro sentido de um ser divino nascido desta forma? É o filho de deus feito em carne. É fácil crer neste perfil. Por que não vir da carne e ainda assim ser divino? Por que não ser um de nós e ainda sim ser obra de um plano maior?

Dos milagres tão facilmente desvendados. Das interpretações dos desígnios divinos feitas por pessoas cheias de interesses escusos. De um livro sagrado manipulado, alterado, recortado, traduzido… Tudo de acordo com interesses muito humanos. E ainda assim ser dado como a palavra inspirada. Tenho problemas com a fé. Acho a fé insuficiente para quem recebeu a dádiva de uma vida explicável. Por incrível que pareça é mais fácil crer no impossível que no possível. O possível é realidade que machuca e nos põe à prova. O impossível não. Podemos fazer o que quiser com ele.

O grande desafio do ser humano é lidar com o palpável, o corriqueiro, e ainda assim saber que esta rotina repetitiva pode ter algo de divino pingando em tua cabeça como goteira persistente. Algo além dessa necessidade de fazer de deus um surdo com o qual você haverá de gritar pra se fazer existir. Profetizar sua palavra como um cantor de axé ou um anunciante de carro usado. E construir um deus mercantil, conferindo a ele uma troca entre a tua fé e os benefícios dele. Alguém já se perguntou qual seria a lógica (pois um deus tão perfeito haverá de ter lógica) dessa interferência absurda das mínimas às máximas motivações? Até porque, se o merecimento do céu é dado pela obra, qual o motivo de tanta interferência? Teu deus já te deu inteligência, discernimento e ciência de sua existência. Pra que mais?

Sinto pena do espetáculo e do desespero. Do complexo do super-homem. Da insuficiência do deus do impossível. Da dependência dos dogmas, como se as atitudes inexplicáveis já não fosse um dogma suficiente. Tenho pena dos cegos que olham mas não enxergam. E um dia as pessoas acordarão? Não! Infelizmente, o mundo precisa dos que dormem. São eles os que sustentam o reino dos (d)espertos.


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