Publicado por: Eduardo Bezerra | Junho 6, 2011

O que o Budismo pode ensinar ao SUS?

A caminho de Brasília para o Encontro Nacional de Coordenadores de Saúde do Idoso, realizado pelo Ministério da Saúde, indago-me se este será como um outro encontro, na mesma capital federal, sobre o mesmo tema. Isso se deu a uns seis anos. Penso que de lá pra cá muito pouco mudou em relação às intervenções da saúde no campo do envelhecimento. Não se pode dizer que este é um processo-surpresa, de difícil detecção. Pelo contrário, há quarenta anos os demógrafos já apontavam para esta trajetória. Ouso dizer que, frente às necessidades, o mais provável é que tenha havido uma certa regressão.

Mas, enfim, pensando no assunto, pego-me com um perfil sobre o mais famoso Buda para o mundo ocidental. Este é o título dado aqueles que são considerados despertos, iluminados. Eles não representam uma personalidade em si, mas um conjunto de pessoas que alcançam um determinado grau de elevação espiritual na filosofia e religião budista. Sidarta Gautama foi o último Buda de uma linhagem de iluminados desconhecida pela história. À medida em que evoluía no texto, a pergunta feita no título desta postagem se desenhava com mais força: o que o budismo poderia ensinar ao SUS? Obviamente este será um texto de analogias e, antecipadamente, peço desculpas se algumas delas parecerem forçadas.

Sidarta, nascido indiano da tribo dos xáquias, século VI a.C., era filho de uma família bastante rica. No intuito de preservá-lo do sofrimento do mundo, seus pais criaram um mundo “perfeito” para ele. Longe do sofrimento terreno as preocupações imediatamente eram cessadas. Eis a primeira analogia. Um governo ditatorial mascarava uma situação caótica da saúde pública de maneira a evitar veiculações públicas dos surtos e epidemias espalhadas Brasil afora. Certamente não houve a mesma boa intenção dos pais do futuro Buda.

Mas havia um muro separando a fantasia do mundo real, tanto para Sidarta Gautama quanto para a população brasileira pré-1988. E quando os problemas avançam além da capacidade de ocultá-los, o barulho atravessa a barreira imposta e, naturalmente, desejávamos ver  que acontecia. E assim Sidarta descobre as quatro cenas marcantes que pautariam sua busca pelo conhecimento: o idoso e a visão da velhice, o doente e a fragilidade da saúde, o cadáver e a finitude da vida, o religioso e sua busca incessante pela verdade.

O Sistema Único de Saúde já conheceu  duas destas cenas: o doente e o cadáver. Morbidade e mortalidade são a tônica da ação em saúde no Brasil. Ainda falta conhecer o envelhecer e a busca sincera e desapegada pela verdade. Destas, a segunda é claramente a mais difícil de acontecer. A verdade pública só é possível mediante um coletivo participante e efetivamente vigilante. Por sua vez, isso só é possível com independência e autonomia. Essa é uma meta cada vez mais difícil de ser atingida com a proliferação de gestões autocráticas e um controle social vulnerável, sensível ao jogo de poder e cooptados pela medusa dos empregos públicos. Uma sociedade passiva e desorganizada termina por erodir o terreno onde se pode construir esta moderna saúde pública.

Por trás do muro, o velho vai se fazendo cada vez mais difícil de ser omitido. Já são mais de 20 milhões deles Brasil afora. Seus reflexos desafiam os sagrados templos da previdência, da infraestrutura urbana, da assistência social. Faz-se ver pelos movimentos sociais e tantas outras instâncias insistentes em sua invisibilidade. A saúde não fica de fora e já vê com indisfarçável temor e incômodo este processo.

Ao final de seu caminho, Buda encontra a solução para os problemas que tanto o assustava. Estas mesmas soluções podem ser compartilhadas para o nosso próprio SUS:

– A natureza do sofrimento: os processos de escuta aprimorados para abordar a realidade e não aquilo que se deseja ouvir de uma pretensa visão do real. Uma sociedade participativa e corresponsável por sua condição de vida. Ambas podem apontar esta natureza de maneira mais efetiva. Acolhimento e gestores mais sensíveis também são essenciais;

– A origem do sofrimento: apontados por uma vigilância em saúde independente,  estruturada e utilizadora da epidemiologia. O poder da informação, associado a uma real capacidade investigativa pode oferecer elementos que levem a este caminho;

– A cessação do sofrimento: determinado pela qualidade da assistência em saúde, manifesta não apenas em sua capacidade de curar, mas também por suas intervenções na promoção e prevenção;

– O caminho para a cessação do sofrimento: obtido por um planejamento forte, lançando mão de informações de qualidade e gestores sensíveis aos caminhos que porventura sejam apontados. Além do cuidadoso desenho estratégico.

Os ensinamentos de Sidarta, agora Buda, transformaram-se em uma religião universal, deixando adeptos em todas as partes de mundo. O objetivo de seus ensinamentos visa atingir o que foi colocado como nirvana, ou a iluminação. Para a saúde pública, o cerne de seu nirvana está em um sistema sustentável e capaz de se orientar e reorientar rapidamente em função de um perfil demográfico e epidemiológico em constante e acelerada transição. O grade desafio está em romper com o que pode ser chamado de política de redoma (da qual escreverei em outro momento), onde os públicos são vistos mais por suas particularidades que pela possibilidade de se articular organicamente em uma sociedade complexa. Um idoso não está isolado em sua condição etária. Tem sexo, faz parte e uma categoria étnica e etária, possui religião e é dotado de orientação sexual própria. Este é o desafio. Este é o muro que nos separa da busca pelo cessar do sofrimento. Pelo menos o sanitário.


Responses

  1. Eduardo, ótima a analogia que vc faz! E te peço licença para reproduzir no Portal do Envelhecimento e, assim, dar a conhecer a outros tantos usuários uma situação mais que anunciada! Hasta cuando?!!!

    • Pode reproduzir, Beltrina. É um prazer enorme! Sempre acompanho o Portal.

      • Adorei Eduardo! Parabéns!

  2. Parabéns Eduardo, você é diferenciado!


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