Publicado por: Eduardo Bezerra | Março 23, 2011

O ético, o legal e Bethânia

“Não foi nada! Não foi nada!” A resposta já começa a ser dada pelo Ministério da Cultura por palavras de sua própria mandatária, Ana de Hollanda. O nada do qual ela fala é o recurso de R$ 1,3 milhões para o projeto de um blog que veiculará uma poesia por dia na net. A direção será do cinematográfico Andrucha Waddington e o recurso destinado à artista de R$ 600.000,00. Números singelos, não? Mas justificado pela superlatividade da artista. Simplesmente Maria Bethânia.

A aprovação do projeto vai de encontro ao caráter democratizante da grande rede. Diariamente, milhares, milhões de conteúdos são postados gratuitamente por anônimos e famosos. Artistas, humoristas, poetas, cronistas, curiosos, neocelebridades, todo tipo de gente, munido de um computador e uma webcam produzem materiais diversificados da maior ou menor qualidade possível. Imagina se uma pessoa como Bethânia, que deve poder comprar um bom equipamento, não poderia produzir este projeto de casa, gratuitamente?

Um outro ponto se deve à fragilidade do sistema de financiamento público de projetos. A morte do famigerado QI (Quem Indica) está longe de ser declarada. Para falar a verdade nunca esteve tão viva. Junte-se a isso pessoas de bom trânsito. Some ainda quando essa pessoa imagina que habita um panteão, um olimpo, repleto de deuses fleumáticos e inacessíveis aos simples mortais? O resultado é uma camaradagem sem fim e uma farra descarada com o dinheiro público. E isso está longe de ser exclusividade da cultura. Muito pelo contrário, encontra terrenos férteis nas obras públicas, na saúde, na educação e em tantos outros campos da administração pública.

A falta de dispositivos de controle da liberação destas verbas é algo que poderia beirar a ingenuidade se não soubéssemos quem faz esta lei. O que custa criar um dispositivo para barrar da Lei Rouanet pessoas que faturem por ano mais que um determinado valor? Em 2007, Ana Carolina ( Aquela do “É isso aíííí…”) conseguiu  R$ 700.000,00 para dois shows que viriam a se transformar em um DVD. Em média, os ingressos do show financiado por nós custou R$ 120,00. O DVD não saiu por menos de R$ 40,00. Grande incentivo à cultura, não? A própria Bethânia não é nova neste ramo, no mesmo ano de 2007 já tinha requisitado ao Ministério cerca de um milhão para o seu Show Brasileirinho. Beth Carvalho conseguiu R$ 1,3 milhões para a comemoração de seu aniversário de 60 anos no Teatro Castro Alves. Caetano Veloso, Céu e Daniela Mercury são exemplo de artistas que fazem uso do expediente. É para isso que serve o financiamento público para a cultura?

A farra porém não se estende aos artistas populares. Isso porque, ao invés das empresas doarem ao Ministério da Cultura em caráter inespecífico, eles o fazem  mediante apresentação do projeto dos artistas, o que faz com que elas escolham quem querem financiar. Gostaria de ver o Fim de Feira, Xico Bizerra, Maciel Melo e tantos outros. Quando muito conseguem uns trinta, quarenta mil, quando muito. Queria vê-los na casa dos milhões, espalhando cultura por aí. Mas não, não vai rolar. O sistema só premia os colegas, aqueles que estão a um telefonema de distância de nossas contribuições ao bem público.

Enquanto isso, Bethânia permanece impassível. E ela tem esse direito. Não faz nada de ilegal. É imoral, antiético, mas está dentro da lei. Não pode ser processada por nada. Tudo o que é exigido foi garantido. Mas quem constrói o sistema o faz pensando nisso, fazendo com que a coisa seja legal. Ética fica em segundo plano.

Fica vermelha, cara sem vergonha!!!!

Enquanto isso, acompanhem abaixo o primeiro vídeo do Blog da Bethânia…

Fonte dos dados sobre os repasses: http://www.cultura.gov.br/site/2007/02/05/artistas-financiam-turnes-utilizando-a-lei-rouanet/


Responses

  1. Meu caro Edu, extremamente pertinente a questão. E o fato (nada melhor que um fato) para retomá-la a cena das discussões de nós, reles humanos, cidadãos comuns. E ai gostaria de lembrar a última vez que esta conversa passou pela minha frente, em revista e rodas de conversa. Naquele momento o enfoque era outro, o lado do problema era outro, os encomodados eram outros. Quando da época, Naninis, Velosos e outros partiram para cima do então ministro Gil, porque este estava impondo uma regulação para o acesso aos recursos de audio-visual. E ainda que amigo dos outros, Gil, que na verdade não cortou recurso de ninguém, só quis dar alguma racionalidade ao processo, encarou os seus amigos, seus iguais, e levou a cabo sua idéia. Mesmo que tenha sido nos anos em que envolve o 2007 citado por você, nestes anos, muita gente disconhecida filmou, gravou e encenou. Não posso negar, que ainda que tenha errado, Gil, como homem, além de artista (afinal, “artista é o caralho!!!”) ganhou muito do meu respeito, rebateu as críticas dizendo: “O Brasil não está a salvo do fascismo da cultura hegemônica, das coorporações e das mídias, autoritárias e com um poder desmedido”.
    Sou sincero que não sei para além do que ganhei com suas informações aqui, em que pé está nosso ministério. Mas só com políticas de Estado diretivas conseguiremos acabar com a ditadura da porcaria produzida em escala industrial.
    Saudações a ti meu amigo,
    Rafael Neves.

  2. Pô, meu amigo. Eu vi uma entrevista do Andrucha falando a respeito dessa boquinha. E o pior, meu velho, é que eu destesto a musiquinha da Betânia!

  3. Muito pertinente seus comentários. Concordo com quase tudo, mas tem muita gente “de fora da panelinha” produzindo na escala de milhões e sendo beneficiado também, por exemplo os filmes nacionais fora do esquema global… O pior é ganhar incentivo do governo e cobrar ingresso…

    Abraço


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