Publicado por: Eduardo Bezerra | Fevereiro 12, 2011

A Violência e o Contrato (ou, quanta violência cabe num espaço em paz?)

Em um magnífico texto de Ciro Marcondes Filho acerca da Violência Fundadora, o autor versa sobre a oposição entre a violência e o contrato. Necessariamente é uma visão que surpreende pela inovação e, o mais chocante, obviamente sobre um fenômeno confinado ao campo da culpa, do crime e da destruição. Hannah Arendt, em seu Sobre a Violência, já atestava para o poder que a mesma tem em produzir coisas e não apenas colocá-las abaixo. Isso porque os processos de transformação são violentos em si pelo próprio rompimento entre o antigo e o novo. Do caos brota o novo.

Mas não foi nem pelas palavras de Ciro Marcondes Filho ou de Hannah Arendt que vi algo neste sentido pela primeira vez. Nos idos de 1995, em uma aula de literatura com meu mais agradável mestre e padrinho Tomaz Maciel, ouvi uma frase nunca esquecida e sempre evocada quando necessário: “Não confunda paz com pasmaceira!” Nada mais apropriado para uma sociedade asséptica, capaz de optar pela ideia de uma comunidade ideal calcada em relações sem conflito.

Egito, 11 de fevereiro de 2010. A revolta popular transforma um país passivo perante leis baseadas nas imutáveis “vontades” de Allah em uma turba sedenta por algo impensável: democracia. Isso mesmo. Um modelo de sociedade ocidental, completamente estranho a seus valores e crenças. O mais sério de tudo? O sentimento desta liberdade se espalha por outras nações igualmente conduzidas pela ditadura teológica. O caos promoveu a transformação.

Índia, 12 de março de 1930. Mahatma Gandhi liderou a Marcha do Sal e seguido por uma multidão de dezenas de milhares de hindus, protestaram contra a proibição do governo inglês que impedia que os indianos de produzir seu próprio sal. Mas havia algo de muito diferente neste processo: a orientação pela não-violência dos manifestantes. No entanto isto não impediu que não houvesse agressões. Pelo contrário. Mais de 60.000 pessoas foram presas e muitas delas severamente punidas fisicamente. Na realidade este é um preceito que transfere a violência de quem protesta para quem defende o status quo. A culminância deste processo se deu em 15 de agosto de 1947 com a independência indiana.

Brasil, 31 de dezembro de 2008. De acordo com os dados do Datasus, todo ano de 2008 contabilizou oficialmente um total de 50.113 homicídios. O país das pessoas pacíficas, passivas em relação a seus direitos, dos cidadãos e cidadãs alegres, assassina o um contingente maior que a população de cerca de 90% de seus municípios. Em um ano! Mas somos o país dos sorrisos, a terra do carnaval. Na realidade somos um país em silêncio. Um país que ainda, e infelizmente, não cedeu ao caos para se transformar.

O erro das estratégias de enfrentamento da violência está na recusa de quem operacionaliza as políticas públicas na reconstrução dos contratos sociais. No Rio de Janeiro, a invasão das comunidades dominadas pelo tráfico só obteve o inédito apoio de sua população quando se evocou um contrato de proteção do Estado frente a estas pessoas. Pelo menos um contrato mais vantajoso que aqueles mantidos entre a comunidade, os traficantes e milicianos. Aqui em Pernambuco o Pacto Pela Vida ainda é uma estratégia de redução dos homicídios e não a ressignificação do contrato entre os cidadãos e seu governo. As políticas voltadas ao policiamento ostensivo sempre são linha de frente em relação às políticas sociais.

Vejo os militantes de uma difusa Cultura de Paz, entidade esta que ninguém sabe direito o que é ou como funciona. Tem vezes que parece um desejo enorme de sociedade guiada para o bem. Quem bem é esse? Quem determina este bem? Não sei. Fico com Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar.” É preciso ouvir as pessoas para tentar entender qual o tipo de convivência elas desejam para si. Até hoje foram os poderosos e eruditos a definir este padrão.

Há algo de errado em nosso modelo de sociedade cada vez mais opressor e extremista. Matar deixou de ser a última opção para ser apenas mais uma. É hora de repensar nossas atitudes e desejos. Como diria Albert Einstein: “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.”


Responses

  1. Mais um maravilhoso texto! Já estou na espera do próximo😉

  2. Edu, vc não escreve apenas um texto bonito, mas encanta, entusiasma, levanta questionamentos e deixa várias reflexões. Fiquei um pouco seguelada com essa frase de Albert Einstein, pois acho que ela se adequa a várias situações no nosso meio de trabalho e na nossa vida.
    Beijos com muita admiração,

    Raquel

  3. êta palavreado bunito arretado!!!eu levo ou deixo o pato?kkkkk,mininu,quem foi teu mestre?
    kkkkkkkkk
    bjks


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