Publicado por: Eduardo Bezerra | Novembro 20, 2010

Negro e biomédico em 20 de novembro

Hoje, 20 de novembro, a celebração para mim é dobrada. Primeiramente pelo Dia da Consciência Negra e depois pelo Dia do Biomédico, profissão que escolhi. Certamente o que é mais emblemático é o fato de como eu me sinto como negro em um trajeto no qual tão poucos tem a possibilidade de trilhar. Antes de tudo é preciso esclarecer que a raiz africana é apenas uma das três que me compõe, juntamente com a herança branca da família de minha mãe e a vertente indígena Xukuru de meus ancestrais paternos. Sinto-me uma mistura disso tudo. Mas, certamente, hoje é o dia no qual a negritude se sobressai, sobretudo porque é ela que aparece em minha embalagem.

 

Em direção ao funil...

Mas eu posso me considerar uma pessoa de sorte. Não poderia nunca dizer que fui excluído de alguma brincadeira, festa, namoricos ou qualquer outra coisa por ser negro. Não sei se pela minha postura, uma vez que meus pais nunca me ensinaram a ser inferior nem superior a ninguém. Outra por ter tido a sorte de viver em um local com pessoas extremamente coloridas que se gostavam pelo que eram. Minha turma tinha negros retintos e brancos reluzentes. E era só. Haviam meninos e meninas isentos da segregação das brincadeiras próprias de gênero. Minhas amigas jogavam futebol e empinavam pipa conosco ao mesmo tempo em que brincávamos de escola e escritório com elas e suas bonecas. Sem frescura ou exclusão.

Bem, exclusão havia. Até porque sempre tinha alguém intrigado com os banhos diários, ou com alguma crise de flatulência  e até com aquele insuportável bafo de onça. E aguentar essas coisas era um pouco demais. Ainda assim, na minha rua a coisa era um pouco invertida porque foram os negros que chegaram mais longe nessa escala de valor criada por nossa sociedade e baseada na culminância em uma universidade. Eu e minha irmã éramos um dos poucos a estudar em escola particular. Quase todos os negros da nossa turma foi para o ensino superior. Quase nenhum dos brancos teve esta oportunidade. E estamos falando de pessoas da mesma faixa econômica.

Meus pais me ensinaram a viver como negro sem que isso se transformasse no cerne de minha vida. Demorei anos para compreender o motivo pelo qual meu pai insistia para eu andar com a camisa por dentro da calça ao entrar em lojas ou evitar usar boné. Só pra lá de adolescente vim saber que isso se dava porque éramos os alvos preferenciais. A camisa por dentro era pra evitar suspeitas de roubo e o boné era sinônimo de malandragem. Era importante que isso fosse parte de mim sem ocupar o todo. A completude é mais complexa: sou o eu homem, negro, íntegro, míope e uma série de outras características que fazem o sentido deste negro-índio-branco que sou.

Mas achando pouco, fui me atrair pela biomedicina para me definir enquanto profissional. Queria conhecer a saúde das pessoas. Queria ser cientista. Queria descobrir. E só quem me oferecia isso na integralidade era justamente a profissão que se celebra neste 20 de novembro. Obviamente tive uma certa decepção ao ver o direcionamento exagerado e cego para o campo das análises clínicas, ainda que boa parte dos biomédicos se destaque mesmo na ciência. Mas havia um destino desenhado para mim.

 

A opção

Sempre fui puxado a percorrer os caminhos que não eram meus. Fui dirigente estudantil com uma linha política não condizente com a de meus colegas. Sempre fui  militante de esquerda convicto (o que me fazia brigar com os demais militantes de esquerda também) no lugar do cada um por si. Segui o trajeto da saúde pública sem optar por nenhuma patota ou partido político (o que te deixa extremamente vulnerável se você não tem um “protetor” pra te valer). Sempre fui um dos únicos negros em cargos de gerência. E à medida em que fui me especializando e avançando nas pós-graduações, fui me tornando um dos pouquíssimos negros a fazê-lo. Acostumei-me ao funil.

Nasci em um país difícil, numa região difícil e em um tempo difícil. O destino me pintou com uma cor difícil. Optei por uma profissão difícil e, dentro dela, por uma linha praticamente impossível. Oficio na difícil arte da saúde coletiva e na improvável militância por um envelhecimento saudável. Compreendi no trajeto da vida o que significa a iniqüidade ao ter de ser melhor que todos para no final ser avaliado igual, no mesmo nível.

Por isso que ser negro e biomédico nos 365 dias do ano não chega a ser especial, mas certamente é essencial para compreender quem sou.


Responses

  1. Perfeito, Dú!!!
    Até breve!!

  2. Valeu cara!!! Mas vc nunca me enganou. Embora disfarçado também um Tricolor!
    kkk

    • Domício, vá à merda!!! kkkkkk

  3. Prezado Dr. Eduardo,

    Seu artigo nos alegra e cada vez nos estimula a continuar nossa trajetória de luta por Biomedicina mais democrática e de maior valorização para todas nossos segmentos e habilitações.
    Em recente sondagem promovida pela ÁgilisRH, fica patente a carência de profissionais bem qualificados para inserção no mercado de trabalho, principalmente aqueles da área de gestão, seja pública ou privada.
    Quanto a inserção do negro em atividades de gestão, estamos evoluindo lentamente, mas a nível internacional, hoje já temos um Presidente negro governando o País mais importante do globo, mas infelizmente ainda não temos na nossa categoria qualquer representatividade nem do negro nem da mulher no Conselho Federal de Biomedicina, que aliais é escolhido por eleição indireta onde só quatro pessoas definem sua composição sem levar em consideração os mais de trinta mil profissionais Biomédicos desse Brasil afora. Tudo infelizmente nos mesmos moldes dos tempos do regime militar. É pensando nessas conquistas entre tantas outras, que pautamos nossa luta por uma sociedade mais justa e democrática.
    No mais, externamos nossa alegria e júbilo pela Biomedicina ter em seus quadros um profissional tão competente, com um belo exemplo de vida e comprometidos com as causas sociais como Você!

    Parabéns Dr. Eduardo.

    Prof. Paulo Miranda(UFPE)
    Presidente do Instituto Nacional de Biomedicina

  4. Caro amigo Eduardo,

    Parabéns pelo seu dia e pelo belo artigo. Que seja fonte de inspiração a todos aqueles que tem oportunidade e não aproveitam. E para aqueles que não tem, é muito bom tê-lo por perto na luta pela equidade étnico-racial e de gênero no mundo do trabalho.
    Abraços fraternos companheiro! SUCESSO!

    Patrícia Munick
    Membro do Comitê Institucional de Promoção da Igualdade Étnico-Racial de Gênero do Jaboatão dos Guararapes.

  5. És especial pra nós os 365 dias do ano. E o dia da consciência negra se faz necessário em uma sociedade que apesar de pisar a todo minuto em uma país construído ideológica, cultural e estruturalmente por negros, não consegue perceber tal fato.
    Parabéns a todos nós que temos a matriz negra em nossos corações e mentes.
    Beijo e abraço,
    Rafinha.

  6. Eduardo meu caro,

    Artigo perfeito e emocionante!
    Parabéns!!!
    ><

  7. Parabéns pelo belíssimo texto e pelo nosso dia também.

  8. Quando disse que tenho orgulho de vc é pq realmente tenho!!! qdo o vi ministrando sua aula na pós de saúde pública, falando com eloquencia, entusiasmo e amor, naquilo que acredita, e falando bem do SUS, fiquei encantada!!! vc é 10 meu amigo querido. filó.


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