Publicado por: Eduardo Bezerra | Novembro 16, 2010

A máquina do tempo

Se pudesse descrever como foi meu final de semana ficaria na dúvida entre o incomum e o mágico. Fico com o segundo, já que o incomum nos ronda com mais frequência. Não sei se a tecnologia evoluiu a este ponto, mas tive a impressão de viajar duas vezes na máquina do tempo entre o sábado e o domingo. Creio eu que estou ficando velho e nostálgico, vendo as coisas que gostava quando criança indo embora e virando posts saudosistas na internet. Mas que sejam, só se sente falta daquilo que foi bom. Ou não?

Mas, voltando. Já tinha me programado pra ver de todo jeito o documentário sobre Ayrton Senna no fim de semana. A princípio pensei em ir sozinho mesmo, mas chamei minha mãe pra almoçar comigo e depois vermos o filme. Acho que a última vez que fui com minha velha ao cinema foi para assistir algum filme dos Trapalhões. Senna é o grande herói que tive na infância e adolescência. Não importava a hora em que as corridas aconteciam, eu assistia. Nem tenho ideia de quantas vezes peguei no sono no meio dos circuitos japoneses madrugada adentro. Ele era tudo aquilo que se esperada de um ídolo: corajoso, boa gente, destemido e ainda falava numa língua conhecida. Foi a primeira pessoa que, ao chegar no ponto mais alto do pódio, levantava a bandeira brasileira.

Mas hoje é fácil fazer isso. Todo mundo faz. Todo mundo usa nossa bandeira em bandanas, camisas, saídas de praia, adesivo ou qualquer outro artigo. Na década de 80 isso era impensável. Os caras queriam ser algum ator ou cantor norteamericano e as meninas se viam Madonnas. Coisa chique era a bandeira dos EUA, cantar em inglês e comprar algum produto importado. E foi em meio a este mundo de rejeição em ser brasileiro, num país onde a fome estava ao nosso lado, o desemprego era homérico e a inflação comia salários em dias, que surgiu um de nós que levantava nossa bandeira e  fazia nosso hino tocar para todo mundo.

Bertold Brecht uma vez disse que triste é o país que precisa de heróis. Besteira, cabra. Triste é o país que não tem seus próprios heróis. Nós finalmente tínhamos um de verdade. Entrei na sala de projeção e, já nas primeiras cenas, senti-me no sofá da casa de meus pais vendo aquele cara fazendo loucuras inimagináveis. Para aqueles que só conhecem Schumachers e Barrichelos, com seus joguinhos de equipe e combinados, Senna foi companheiro de escuderia simplesmente de Alain Prost, seu maior rival e um dos maiores pilotos de todos os tempos. A coisa era de uma maneira tamanha que em dois campeonatos seguidos, o campeão foi decidido com um jogando o carro sobre o outro.

Mas o filme é uma viagem no tempo angustiante. A felicidade vai dando lugar à tristeza na medida em que o ano da morte de Senna se aproxima e nós sabíamos o que aconteceria. O filme poderia ficar em 1993. Já estava muito bom. Quem assistir vai ter uma vontade enorme de gritar pra ele não entrar no carro em Ímola. Foi uma sensação indescritível ver o meu grande herói de sempre novamente ultrapassando insanamente os carros à sua frente, ouvir o tema da vitória e suas corridas espetaculares na chuva.

Mas eis que chega o domingo e vou com Simone à Fliporto. Bem, minha avaliação geral foi de uma feira literária decepcionante. Não pelos convidados e mesas redondas. Infelizmente não consegui assistir alguns que eu queria. Perdi Moacyr Scliar e Camille Paglia. Mas, se é uma feira, deveria haver oferta de livros para vender, lançamentos, editoras com seus arsenais, ou não? Mas não havia da forma como eu imaginava. O que tinha era um galpão quente com um aglomerado de editoras com seus temas manjados, pouca variedade (perto de nossa produção) e quase nada de nossa cultura popular (salvo pela CEPE e por alguns heróicos vendedores de cordéis). Não vi a Unicordel, a Coqueiro. Vi um stand muito do chinfrin da Bargaço, outro fraquíssimo da Saraiva, fora ter que aturar a Souza Cruz como patrocinadora.

Mas ao fim da tarde, quando tudo parecia estar perdido, aparece um cara com a mão cheia de marcadores de livros, anunciando uma palestra de Daniel Azulay em dez minutos. Olhei para Verônica e saímos correndo ladeira acima em direção ao Mercado da Ribeira. Azulay era o ídolo de minha geração. Graças a ele fiquei imune à Xuxa e Mara Maravilha. Só não me livrei do Sérgio Mallandro porque sempre fui esculhambado e escrachado. Com Daniel aprendi a desenhar, coisa que me garantiu sustento por quase dez anos.

Apesar do tema interessantíssimo (Artes Gráficas na Cultura Judaica) nem eu, nem Verônica, nem Simone e nem a maioria das pessoas que estavam ali tinham como motivo a palestra. Todo mundo queria ver de perto aquele cara simpático, com cara de boneco e que, dia após dia, fazia desenhos, personagens com bexigas e brincadeiras legais. Senti-me criança no auditório de seu programa, esperando ele fazer um desenho pra mim a qualquer momento. Não lembro em minha vida de outra situação na qual tenha ficado tão emocionado.

No final da palestra absolutamente todo mundo avançou em sua direção. Eu e Verônica também, é claro! Simone ficou com o celular na mão fazendo as fotos dos adultos mais abestalhados da face da Terra. O melhor de tudo é que a simpatia do programa se repete na atenção com a qual ele trata a absolutamente todo mundo. Conversamos com ele, tiramos fotos e pegamos autógrafos. Como se fôssemos crianças novamente. Desci a ladeira falando alto e dizendo a todos os conhecidos que via no caminho que eu tinha pego autógrafo de Daniel Azulay.

Eu, Verônica e Daniel Azulay

Bem, amigos e amigas que acompanham o Blog e a coluna na Besta Fubana. Creio que foi o post mais bobo que escrevi até hoje. Talvez tenha sido o texto mais horrendo de toda minha vida, mas precisava compartilhar esta felicidade enorme com vocês que me acompanham e aguentam sempre. Desculpem-me do fundo do coração fazê-los perder este precioso tempo.

Ah, e eu ia esquecendo! E não é que o Daniel Azulay me fez um desenho?

Alguém acha que vou perder isso um dia?


Responses

  1. “post mais bobo que escrevi até hoje”…
    Você está maluco?! Já ensaiei um pouco da emoção ao vir estas fotos (e comentá-las) lá no seu orkut e, ler este post, fez eu me sentir feliz-saudosista-abestalhada na madrugada!rs
    Tal como você, devo toda a minha inspiração para desenhar ao Daniel Azulay, só não ganhei dinheiro por 10 anos com os desenhos…kkk
    Parabéns pelo post, pelo blog e obrigada por me fazer reviver um tempo bom “quissó”!
    obs: Por favor Dudu, leva o desenho da próxima vez que nos encontrarmos, pode ser? Sim,sim,sim?!!!
    Cheiro e paz.

    • Meu caro Eduardo, quando eu morava em arcoverde eu era fã de Miss Leny e Perla.Como eu queria um autografo delas. Humm que saudades das rodas gigantes e da rádio difusora cantando Roberto Carlos. Eu era um matuto muito feliz

  2. Rapaz…sorte a sua ter encontrado essa figura que muitos da nossa época sequer sabem da existência (o que é uma vergonha!). Os desenhos que ele ensinava eu sempre tentei, mas nunca tive o menor talento, definitivamente! O mesmo acontecia com as bexigas. Habilidade zero. Mas eu me amarrava mesmo era no jeito que ele se vestia (aquela gravatinha borboleta era uma onda!) e nos personagens que faziam parte do programa. Adorava aqueles cabeções! Bons tempos…

  3. Querido Eduardo,
    É sempre muito bom ler seu blog e matar a saudade… Você não imagina o quanto mim faz bem. Apareça, venha conhecer de pertinho o NASP (Nucleo de Apoio a Saúde do Professor), o serviço está a todo vapor. Cheiro
    NASP: 3469-1999 R:28

  4. Oi Eduardo!
    Enquanto procurava algum comentário na net sobre o momento “Daniel Azulay” na Fliporto, dei de cara com seu blog e, levei um susto ao ler o texto, pois, com algumas pequenas ressalvas (“só não me livrei do Sergio Malandro…”), parecia que eu é quem o tinha escrito, rsrsrsrsr. Fui lendo, rindo e chorando de emoção ao mesmo tempo…
    Pra mim também foi um momento mágico, uma mistura de volta à infância com a satisfação de descobrir, ao vivo e à cores, que não fomos enganados quando crianças: Daniel Azulay é mesmo um sujeito muito gente boa.
    Bom, mas resolvi lhe escrever mesmo porque, quando vi sua foto lembrei que você era o cara que estava à minha frente esperando a vez de falar com o Daniel, e em uma das fotografias que tirei, por acaso você também aparece. Se quiser posso lhe enviar, ok?

    Um abraço e obrigada por compartilhar a felicidade de termos feito parte, por alguns momentos, do grupo de adultos mais abestalhados do centro da terra! rsrsrsrsrsr

    Claudia Nascimento

  5. Olá querido professor , adoro ver e ler seus blogs, sao bacanas, divertidos e enriquecedores. Parabés por todas suas conquistas e continue no avanço. Beijos


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