Publicado por: Eduardo Bezerra | Outubro 12, 2010

O que significa o Direito à Vida?

Sinceramente, quando esta campanha presidencial teve início eu não imaginava que ela ia finalizar na maneira tão desqualificada como se mostra. Exageros à parte, caos seria a palavra correta para ser utilizada, levando-se em conta sua origem histórica. De origem grega, o termo inicialmente caracteriza o vazio que precede o nascimento dos seres e realidades do universo (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). Talvez todo este estado caótico nos leve a uma nova perspectiva de construção política.

Isso porque, diante de tantos problemas fundamentais, a campanha presidencial deste ano ultrapassou os limites do mal gosto e desqualificação do público e encampou a única coisa sobre a qual não se poderia tocar nunca em um processo eletivo: a questão religiosa. Principalmente porque religião é uma dimensão particular de cada um e não cabe de maneira participativa na gestão do Estado. Por mais que nossa ética e moral esteja calcada num molde judaico-cristão, toda e qualquer participação nas questões estatais param por aí.

A questão do aborto se tornou o fiel da balança num país onde o analfabetismo mata as pessoas por ignorância, a corrupção mata por desvio de recursos para hospitais e um sem número de atividades vitais, a má distribuição de renda mata pela impossibilidade de adquirir o mínimo possível à manutenção de sua saúde e a mentalidade política mata pelos acordos lobistas feitos para um conjunto de pessoas cada vez melhor ter acesso ao grosso do capital gerado com o esforço de uma enorme coletividade. Onde está a defesa da vida?

O que torna a situação ainda pior do que se mostra é que a briga não é em nome do Cristo vivo ou morto propagado pelas religiões. A luta é por poder, espaço político, manipulação e dinheiro. Não passa de um grande levante utilizado como moeda de troca por um conjunto de igrejas pesque-pague que se reproduzem indefinidamente, roubando seus fiéis, iludindo sua fé, fraudando milagres. Tudo isso com permissão do Estado. E tudo isso é anterior à onda neopetencostal. Seria injusto dizer que Edir Macedo ou Silas Malafaia começaram com isso.

Tudo começou no Vaticano, nas sinagogas, por entre as gregas ninfas, nas mesquitas. Nem sempre em busca de dinheiro, mas invariavelmente em busca de controle sobre a vida alheia. O Olimpo foi exterminado quando não mais servia de domínio, Papas foram mortos, rabinos incriminados, homens explodem pelas cinturas carregadas de bombas, tudo isso para incidir no coletivo humano. Obviamente pessoas como o capo da Universal do Queijo do Reino de Deus ou o grande orador Malafaia são os bastiões modernos de um controle que tinha se enfraquecido no seio da igreja católica. O controle mudou de mãos com a transição da miséria. O miserável era aquele desprovido de direitos e de recursos. Hoje os recursos são um pouco mais acessíveis, entretanto a miséria foi ampliada na exclusão do construir de um Estado que satisfaça à população como um todo. “Ore que Jesus vai te prover!” Uma semana depois chega uma bolsa família.

Será que toda a discussão das questões nacionais se resumem ao aborto? Onde está o espaço para as defesas civis, numa país onde ainda se está vulnerável a tragédias por deslizamentos? Onde está a evolução da Bolsa Família para evitar que o socorro seja permanente? Onde estão as políticas para as estradas em um país campeão de mortes por acidentes? Onde está o nosso Sistema Único de Saúde, tão sufocado pelas UPAs que resgatam o modelo hospitalocêntrico e mata a nossa Atenção Primária, nossa Estratégia de Saúde da Família?

Mas há erros de todos os lados. Nas religiões e nos religiosos com sua hipocrisia tão tóxica. Quem já viu falar de aborto com manifestações religiosas que tantas vezes recorreram a este artifício sem nenhuma nobreza motivacional? Simplesmente para preservar seus sacerdotes e fiéis mais participativos. Evitanto escândalos ou coisas que possam afetar a credibilidade das instituções. Isso também acontece com a questão da homossexualidade. Pecam os governos por nunca assumirem explicitamente uma posição clara com relação ao tema. Descriminalizar é bem diferente de apoiar. É evitar que uma mulher seja presa injustamente, além de preservar sua vida não permitindo que ela morra em uma clínica clandestina. Vale salientar que esta é uma realidade para as mulheres pobres, aquelas que não têm condição de proceder ao aborto em ambientes estéreis e asseados de exclusividade das ricas. Pecam os movimentos sociais ao concentrar a discussão em serem contra ou a favor do aborto. Foi uma das piores estratégias que já vi.

Quem em em sã consciência é a favor de abortar? Nenhuma mulher é favorável a uma coisa como essas. Um ato que traz sofrimento e mutila a mulher física e psicologicamente não é feita de maneira nenhuma com prazer ou indiferença. A pessoa sofre para tomar a decisão. Quantas delas não exitam e desistem no momento de iniciar os procedimentos? Os motivos que levam uma cidadã a esta situação, não estranhamente estão de fora do debate. Quem sabe não ganhe um capítulo especial na Veja ou um episódio do Globo Repórter? Mas só depois da eleição, é claro! No momento em que o assunto é abordado alguém se preocupa com a cabeça de uma mulher que leva o fruto de um estupro no ventre? Tem alguém se perguntando sobre como fica a mulher que gera uma criança que vai ser dada a um estranho qualquer por falta de condições para o cuidado? Mesmo que não ache que seja um motivo plausível, duvido que em meio a este processo de campanha alguém tenha parado pra refletir sobre a mulher que vai dar a luz a um filho e não ter como alimentá-lo, vestí-lo ou cuidar de sua saúde com um mínimo de qualidade.

Mas isso é compreensível porque este é um debate que se dá na ponta da pirâmide social, com pessoas que podem pagar seus abortos em clínicas privadas e calar os seus para que a sociedade não saiba nunca do acontecido. Ou quando dão uns trocados para a empregada tirar com agulha de crochê o filho que ela espera do rebento do patrão. Ou pessoas que tem o que comer com fartura, ou estudaram em bons colégios e acham que isso não é necessário na vida daquele pobrezinho da esquina. Um prato de arroz, feijão e farinha é mais que suficiente. É muito fácil decidir sem ter a mínima ideia do que acontece do lado de fora do carro com ar condicionado.

Ao povo só resta Jesus, o único que lhe vale nos momentos de solidão, exclusão e fome. O único que acolhe no desespero do vício. O único que olha pra ele com ternura no momento da despedida após uma bala perdida ou achada. Bem, vocês concordando ou não, crentes ou não, para quem crê Jesus é mais importante que plano econômico, estruturação da economia, justiça social ou qualquer destes termos que não fazem sentido para a maioria de nossa população. Até porque nada chegou a eles, não é? E quem faz essa comunicação com Cristo? Quem?

Enquanto isso vemos na televisão um ateu beijando a cruz e a primeira ida de uma candidata ao santuário de Aparecida. Em pleno período eleitoral, coincidentemente. Serra esquece que foi em sua gestão no Ministério da Saúde que o processo de descriminalização do aborto teve início. E Dilma que faz parte de um governo onde este processo vivenciou avanços consideráveis, apesar das forças contrárias. E ambos abrem mão destas conquistas por populismo e medo da fúria dos pastores. Serra acusa Dilma e “esquece” que Soninha, sua coordenadora de campanha e possível ministra de alguma coisa, não só fez um aborto, como propagou aos quatro cantos do planeta a sua (bem estruturada, vale salientar) defesa. Dilma evita até a palavra descriminalizar. Serra recita os Salmos e Dilma batiza o neto ainda recém nascido para botar no guia eleitoral. Prefiro não explicitar, mas nesse caso há um lado mais hipócrita sim. Prefiro não emitir opinião. Porém, em nenhum dos casos há hombridade suficiente para defender nada.

Queria muito terminar com um conceito de Direito à Vida. Infelizmente não consigo. Não tenho como. Sei o que pra mim é ter direito a uma vida digna, sem ser tratado pelos governos como gado, onde a engorda e a vermifugação são mais que suficientes. Pra que pobre com mais que isso, não é? O que eu sei é que a campanha que eu gostaria de ver é outra. Bem diferente.


Responses

  1. Apoiado!!!! Meu presidente!!!!!


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: