Publicado por: Eduardo Bezerra | Setembro 21, 2010

Wilson Freire e a memória da cultura popular pernambucana

Os debates acerca da cultura popular geralmente se seguem de uma aura de conservação ou, como costumo dizer, de formolização de nossas representações folclóricas. O termo é formolização mesmo, no intuito de manter em formol nossa arte. A coisa se torna chata, como se vivenciada na rotina de um museu típico, onde nada pode ser tocado, manuseado ou transformado. Alguns elementos de nossa identidade cultural são mantidas nesta redoma e vistos cada vez mais como animais em exibição e menos como personalidades pulsantes.

Mas há sempre uma luz no fim do túnel e neste caminho está Wilson Freire. Documentarista pernambucano, é médico nas horas vagas. Tive oportunidade de conhecê-lo em Olinda, quando cuidava dos materiais informativos de da Secretaria de Saúde. Wilson era responsável pelo Núcleo de Educação Popular e, com o apoio de João Veiga, secretário à época, conseguiu construir a memória das atividades realizadas na gestão, coisa que não vi ainda em nenhum outro lugar.

Em um destes trabalhos acompanhei o registro do projeto Coquistas de Olinda. Um grupo de tocadores e cantadores de Coco foram convidados para escrever e interpretar músicas que dissessem respeito aos temas do enfrentamento à violência e às DST/AIDS. Tive o prazer de fazer algumas fotografias, junto com o lendário Passarinho, e a arte dos dois CDs do projeto. Entre outras figuras, pude ver o processo de trabalho de Selma do Coco, Aurinha, D. Argentina e tantos outros. Em meio a eles uma figura que se destacava mesmo sem pronunciar uma palavra que fosse. Negro, magro, porte mediano, cabelos e barba branca, um chapéu de aba curta e uma camisa de tecido com uma de malha por dentro. Nas mãos um pandeiro e na cabeça um mundo. A voz rouca anunciava o grande mestre Galo Preto.

Não sabia eu que aquele era o retorno de um longo período de ostracismo. Não sabia eu que a história que ele carregava era imensa. Não sabia eu que seu tamanho se multiplicava quando o livro de sua vida era lido de trás pra frente. E, certamente, não saberia de nada disso se não tivesse saído de minha residência ao quinto dia do mês de setembro deste ano de 2010 em direção à cidade de Olinda, mais precisamente no Seminário de Olinda.

Era noite de céu limpo e o filme foi exibido no ponto mais alto da Marim dos Caetés. Obviamente ambos, Wilson e Galo Preto, encontravam-se na primeira fila, sem nada que os separasse da tela. Anúncios feitos, o filme se inicia e, com ele, um importante pedaço de nossa cultura popular. Não vou falar de Galo Preto nesta hora, em outro momento escrevo mais sobre ele, mas é interessante ver como Wilson Freire interpreta o registro de uma cultura popular.

Grande parte de nossa identidade foi composta no anonimato de trabalhadores comuns. Cortadores de cana, sapateiros, marceneiros e toda a sorte de profissionais dividiam sua vida com a chefia de folguedos coloridos, ritmados, magníficos. Mantiveram-se à revelia dos salões aristocráticos, em terreiros de barro, quase nada diferenciados de quilombos. Camuflados em brincadeiras despretensiosas, guardaram nosso tesouro sem o mínimo pudor de mexê-los e transformá-los. Completamente diferente das palavras difíceis dos estudiosos.

Wilson não cedeu à tentação de visualizar Galo Preto pelo eruditismo de sua arte pura. Resgatou sua vida como ela foi. Ungiu-o com o título de Menestrel. Desfiou seu reinado e registrou a mistura com a modernidade. Galo Preto faz o coco mas faz o hip hop também. Senta com Arlindo dos Oito Baixos e, em pouco minutos, põe Roger de Renor pra dançar. Escancara sua tristeza na mesma medida a qual lustra e amplia um documentado convencido, ciente de sua grandeza.

Não seria muito dizer que Wilson Freire foi justiceiro. Pistolou as trevas que cercavam uma personalidade rica, indispensável e tão invisível de nossa cultura. Agora ele está aí. Sua obra merece uma divulgação massiva, exibição exaustiva e peregrinação pelos inúmeros festivais de cinema que aí estão. Mostrar de maneira pulsante nossa cultura viva. Registrar para que outros o tenham como base e venham a produzir novas coisas tão boas quanto.

A responsabilidade de Wilson Freire se multiplicou agora. Há muita gente boa oculta por aí que merecem registro. Ele não conseguirá guardar tudo em imagens, mas se fizer uma parte com a mesma sensibilidade e brilhantismo que fez com Galo Preto – O Menestrel do Coco, conseguiremos equilibrar esta gangorra que pende tanto para manifestações mais pop, como a bossa nova e o samba. Nossos mestres e mestras merecem perpetuação. Mostrar a gargalhada de Selma, a elegância de Aurinha, a majestade de Lia e a virtuose do Mestre Salustiano, são dívidas que Pernambuco ainda tem com os seus. E assim será possível dar vida ao nosso museu, transformado-o em algo divertido, digno de aplausos e orgulho. Assim poderemos dançar nossos folguedos antes que nos transformemos em memória de computador viajando pelo espaço atrás de algum alienígena que nos entenda.


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