Publicado por: Eduardo Bezerra | Setembro 19, 2010

Efeito Tiririca (ou, o moderno Bode Cheiroso)

Vi no documentário sobre Tom Zé exibido na Mostra de Música em Olinda (MIMO), o trecho de uma canção que falava do compositor brasileiro. Antes de escrever este texto, lembrava-me desta peça para fazer uma analogia com nossa elite pensante. Deixa mostrar pra vocês um pedacinho de Complexo de Épico (sim, é assim mesmo que se escreve).

“Todo compositor brasileiro é um complexado

Por que então esta mania danada, esta preocupação de falar tão sério, de parecer tão sério, de ser tão sério, de sorrir tão sério, de chorar tão sério, de brincar tão sério, de amar tão sério?”

Pois é, quando todos pensavam que o furacão da eleição estaria na disputa entre Dima e Serra, ou na elegância política de Marina Silva, ou até na comédia stand up de Plínio… Ou nos escândalos políticos das quebras de sigilo, lobby junto a empresas públicas, cooptação de parceiros, essas coisas, eis que surge a grande personalidade eleitoral em 2010: Tiririca. Palhaço, malabarista, egresso da fome, humorista e sucesso na televisão, como tantos outros que poderiam passar despercebidos, foi alçado à categoria de fenômeno político.

Bem, quem o fez foi o povão? Definitivamente não. O Tiririca, futuro deputado federal, é produto da mídia e da elite pensante e indignada brasileira. Foram eles os primeiros a intitulá-lo de escárnio por aparecer na TV dizendo não saber a função de um deputado. Pois pergunte a seus candidatos se eles sabem. Não se assustem se algum deles gaguejar e formular uma tese para, ao final, demonstrar que não tem a mínima dimensão do que significa o cargo. O problema é que foi um palhaço quem falou. No Brasil, o que não convém não pode ser dito.

Poucas foram as pessoas a observarem o fenômeno pelo lado do protesto e do descrédito com a categoria política. Na realidade, poucos foram aqueles que realmente se interessaram por uma análise mais aprofundada da situação. Preferiram a esculhambação, a oportunidade de humilhar o povo por suas escolhas. O voto é o único momento no qual as pessoas se sentem em pé de igualdade uns com os outros. Numa mesma fila pousam pobres e ricos, negros e brancos, homens e mulheres. E é justamente este o momento onde os esquecidos vomitam suas angústias e frustrações, entregando aos reis os seus bobos da corte.

O palhaço só ganhou público e a eleição quando ele se transformou em tudo aquilo que nós, sabidos, desprezamos. “É isso que os irrita? É isso o que terão.” E não se surpreendam se boa parte dos votos de Tiririca vier de uma juventude que não se sente minimamente instada a respeitar um modelo político que não o respeita. Já são algumas eleições tentadas por Reginaldo Rossi sem sucesso. Gretchen foi uma decepção ambulante em Itamaracá. Recife poderia ter elegido o Gordo Salada. O gestual 2590 de Pernambuco está aí para ser alavancado com seu dedo no nó da garganta e no “pau da venta”. Nenhum deles terá sucesso. Não foram execrados o suficiente para virarem mártires. Tiririca foi, assim como Clodovil.

À época dos votos escritos em cédulas, os protestos eram generalizados. A eleição paulistana de 1958 elegeu o rinoceronte Cacareco como o vereador mais votado da cidade. Jaboatão dos Guararapes, o Bode Cheiroso, também na década de 50. O Rio de Janeiro ainda viu o macaco Tião chegar em terceiro lugar na eleição para prefeito de 1988. Obviamente, em dias de urna eletrônica, este tipo de protesto não pode ser feito. Os animais em questão são elegíveis. Que vá o palhaço, então.

Alguns podem perguntar o que estes caras podem fazer pela política em termos de qualificação de propostas, essas coisas? Devolvo a pergunta, o que seu candidato tão bom e capacitado têm feito por você? Será que ele tem realizado algo de verdade por você? No final das contas só consegue alguma coisa o pessoal do lobby, da negociata. A Copa e as Olimpíadas estão aí pra mostrar isso, o Ato Médico também, além do enterro da CPI do Futebol. É muito fácil ver político bom, respeitável e com currículo lustroso votar contra o povão por orientação partidária ou conveniência. A lei das Organizações Sociais para gestão das novas unidades de saúde do estado contaram com vários deles. E todos estão aí, com cara de coitados, pedindo seu valioso voto.

Bem, por enquanto Tiririca continuará sendo uma exceção, uma forma de deixar um espinho incômodo por quatro anos em meio aos donos do poder. Portanto, continuo com Tom Zé, ainda em Complexo de Épico:

“Ah, meu Deus do Céu! Vá ser sério assim no inferno!”


Responses

  1. Caro Eduardo,
    Ates de qualquer comentário. Parabéns pelo Mestrado!
    O texto e o vídeo dessa postagem deixam a marca forte do seu retorno ao mundo dos Blogs. Estou recomendano no meu TWITTER.
    Um grande abraço.
    Geraldo Barbosa (Blog 14-F)

    • Geraldo, é uma felicidade ter você acompanhando meu blog. Fiquei muito feliz com o presente dado por você e Marli. Já estou na metade da leitura e me sinto muito orgulhoso de ter amigos tão talentosos como você. Um grande abraço.


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