Publicado por: Eduardo Bezerra | Junho 19, 2010

Não tão de repente, parte o Mago

José Saramago (1922-2010)

Saramago não era ateu. Suas obras gritam isso a cada página. Só um displicente não perceberia que conversava com deus em intimidade ímpar. Só um cego não via sua busca por um deus. Seu deus. Buscava questionando, na melhor forma de buscar algo: onde está? Para onde foi? Só se procura aquilo no qual se acredita que exista. Nunca vi alguém procurar o impossível. Nem os cientistas. Buscando a máquina do tempo ou a fórmula alquímica da juventude eterna, por mais que digam ser improvável, eles buscam. Buscam porque há cem anos atrás ir ao espaço era impossível. E fomos.

Saramago não era pessimista. Não achava o otimismo uma ignorância, como profetizava. Um pessimista se conforma, fala baixo e aceita a ida à força. Saramago rejeitava o conformismo. Assim como nunca vi alguém buscar algo o qual não acredite que exista, não creio ser possível alguém gritar sem esperança. Nem um louco. E não existe esperança sem otimismo. Por uma questão de lógica matemática, era otimista sim. E ignorante, como profetizava.

Não era comunista. Pelo menos não o clássico. Uma pessoa que falava de amor não poderia nunca aceitar a ditadura. Nem a do patronato nem do proletariado. Não há possibilidade de se amar na privação dos sentidos. Podia ter afeição pelo comum, radical da palavra comunismo. Mas isso é o que menos aparece neste ideário. O importante é o trabalho e o produto do trabalho. Nos resumimos a isso. Leio sobre opressão, luta, trabalho, produção e capital. O comunismo nunca me ofereceu o amor e a compreensão. Não há isso na ditadura. Nem do patronato nem do proletariado. Havia a igualdade. Perigosa igualdade que nos faz iguais quando somos diferentes. Mágica e magnificamente distintos. Talvez ele fosse um comunista essencial. Na essência da palavra.

A descrença de Saramago não o fazia um materialista. Isso seria um paradoxo se não estivéssemos falando do menos materialista dos incrédulos. Porque quando se vai a crença no espírito só fica a matéria. Aquilo que se toca, aquilo que se sente. Um materialista não percebe o afeto. Não mais que uma série de reações químicas. Não mais que um conjunto encadeado de processos. Não mais que um incômodo que logo passa. Um materialista nunca afirmaria que a única defesa contra a morte seria o amor. Nunca.

E assim ele se foi. Não tão de repente. Gastou-se nesta terra de momentos finitos, instantâneos. Com seus parágrafos intermináveis capazes de fazer o fôlego se perder entre as marcas de tinta. Não era apenas um alimento para a mente, mas uma prova para o corpo. Caim, seu último livro, foi pródigo nesta maratona. A impossibilidade de cortar a ideia no meio fazia da obra dele uma história contada por nós mesmos. E uma hora a genialidade tem um fim, sobretudo quando nos afastamos do humano e beliscamos o fruto da árvore do conhecimento.

Bem, Saramago. Mordestes o fruto que nos tirou do paraíso. Mas como todo antídoto é feito do próprio veneno, chegou tua hora de voltar ao éden. Se é que ele existe mesmo.


Responses

  1. Querido Duda
    Já pensou se todo curioso for diagnósticado de ateu, comunista,profano etc. Infelizmente, desde que a Igreja Católico se tornou a MÃE PERVERSA da ciência, da humanidade que alguns gritam contra esta incivilidade. Saramago, foi um deste que crucificou e lutou contra a ignorância da igreja. Seus pensamentos, estão bordejados de liberdade, fé e esperança por uma verdadeira liberdade do homem. Vejo o Saramago banhado no pensamento do SARTRE: “Estamos todos condenados a liberdade. E foi isto o quer o velho Saramago fez: se aprisionar em sua própria liberdade, que por sinal é um cativeiro difícil de se viver. Todos aqueles que se arvoram da liberdade para falar dos seus sonhos, desejos e liberdade são acorrentados pelo positivismo, pela indecência da religião e pelos grandes ditadores da liberdade. Enfiem podemos passar o tempo falando de Saramago. Para mim O ensaio da Cegueira e da Lucidez é uma obra para aqueles que em algum momento de suas vidas, lutal pela liberdade .
    Alexandre Magno

  2. Edu

    Você me instigou com sua matéria sobre Saramago a escrever e refletir outras questões. Você me surpreende por sua ousadia e ao mesmo tempo densidade no que escreve quando sente na alma. Para mim Saramago sentiu na alma a vida vivida e pode passar esses sentimentos com nobreza, delicadeza e ao mesmo tempo humildade e coragem. È preciso coragem revelar o que de mais íntimo nos angustia, nos traz felicidade, dúvidas, esperanças, desesperanças enfim viver. Não saberia definir Saramago pois li pouco a obra dele mas vendo ontem a entrevista dele com Marília Gabrilela fiquei encantada com a simplicidade e complexidade do que ele era e é e a doação dos seus principios para a humanidade ser o que se é, exercer a sua essência sem querer entender tudo! mas antes de tudo saber sentir!
    Luiza


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