Publicado por: Eduardo Bezerra | Maio 31, 2010

Um dia na Escolinha Mundial

Essa escola, viu?

Zé chegou em casa muito triste.

Estudava na Escolinha Mundial, um local que tinha alunos de todos os lugares do planeta. Quando seu pai o viu cruzar o portão, cabeça baixa e o olhar nos tênis, imediatamente perguntou o que tinha havido. Qual não foi sua surpresa ao ouvir o relato abaixo.

“Pai. O senhor sabe que na minha escola tem gente de todo o lugar, não sabe? Pois é. Fica difícil muitas vezes o pessoal se entender. Cada um fala uma língua diferente mesmo quando querem dizer a mesma coisa. Tá complicado de entender? Mas o negócio é que teve uma briga hoje lá na escola e a coisa ficou meio feia. Esse negócio de ter muita gente num mesmo lugar dá muita confusão. Tem sempre um que gosta mais do outro, o pessoal que anda em turma e aquele que quer ficar de bem com todo mundo. Tem o chefão e aquele que lancha pedindo pedaço do lanche dos outros.

Mas o problema, pai, é que tem um menino lá na minha classe muito complicado. Ouvi dizer que ele é assim porque, quando era pequenininho, tiraram o local onde ele morava e ele ficou muito tempo na casa dos outros. A turma disse que ele vivia espalhadão por aí. E parece que isso demorou muito tempo. Nessa época parece que ele apanhou de muita gente em todo lugar que passava. Mas dizem que uns dos piores foi o Hanz, um galeguinho da 4ª série A. Disseram que ele prendia o menino, batia nele e ainda cismava de brincar de cientista com o coitado.

Acontece que houve uma briga no pátio das grandes, onde quase todo mundo da escola se envolveu. E esse foi o segundo quiprocó, viu? Parece que já tinha rolado um antes, mais ou menos com a mesma turma. O quê, pai? Ah! O que me deixou triste? Peraí um pouco que eu já chego lá. É que tem mais coisa. Teve uma turma de lá que não gostava do Hanz e, como percebia que a grande diversão dele era fazer isso com o menino, tiraram ele de lá e deram um pau no galego. Pense um cacete… Parece que tiraram um espírito dele de um jeito que hoje ele tá bonzinho demais.

Quem tirou o menino da confusão? Foi um grandão lá. A gente chama ele de Janjão, mas é porque o nome dele mesmo é John. Tem um menino que anda com ele e fala quase que do mesmo jeito, o James. Esse Janjão é metido a justiceiro e dono do mundo. Todo grandão, tem umas manias de proteger um pessoal que só falta beijar a mão dele. O problema todo é que, com o tempo, o menino que apanhava do Hanz foi ficando meio mascarado. Fazia umas coisas assim, que ninguém entendia muito o motivo, sabe? O pessoal fazia de conta que não havia nada demais. Diziam que ele era daquele jeito porque tinha sofrido muito e que, se dissessem algo, ele podia ficar traumatizado.

Eu notei que ele começou a se aproveitar um pouco. O pior é que tinha uma turma que já não gostava muito dele. O pessoal chamava de turma do kibe, porque comiam muito kibe o dia todo. Esse pessoal era doidinho pra pegar ele na saída das aulas. Só que, depois que o menino começou a andar com o Janjão e o James, ficou mais difícil de pegarem ele. Os grandões ficam sentados só olhando as provocações. Quando o menino provoca, eles não fazem nada, mas quando a turma do kibe apronta, é muita pedra voando pra cima deles.

O problema é que tem o Samirzinho. Ele e o menino dormem no mesmo quarto, mas quando o menino começou a andar com o Janjão e o James, colocou o Samirzinho pra dormir num colchão no chão. Sei que, de lá prá cá, até pra comer o Samirzinho tá com bronca. Ele só come o que o menino deixa, só se veste com o que o menino deixa e só recebe os amigos que o menino deixa. O pior é que até o diretor da escola, o senhor Onuzildo, protege esse menino.

Quando Samirzinho se revolta, tem mania de jogar areia no menino. Só que o menino responde com murro e pedrada. Muita covardia. E toda vez que o Samirzinho tenta pegar uma pedrinha de seixo lá de perto do balanço, o Janjão e o James tomam da mão dele e mandam o menino bater. Por isso o pessoal da turma do kibe fica tudo arretado e, de um tempo pra cá, anda jogando umas pedras na casa do Janjão, do James e de outros colegas que andam com eles.

Ah, pai! Tá bom, eu vou fechar a história. O que me deixou triste é que hoje, na hora do recreio, a gente estava brincando de barco no pátio. A gente pegou um monte de bonecos dos Comandos em Ação, do Ben 10, Power Rangers e colocou tudo nos barcos. Uns meninos de lá da sala inventaram de brincar dizendo que iam levar comida pro Samirzinho. Pai, sabe o que o menino fez? Pegou umas pedras e jogou nos barcos dizendo que a comida era arma e que os navios estavam cheios de terroristas. O Samirzinho ficou lá chorando e os meninos esperneando. Janjão e James só de olho, mas não fizeram nada ainda. O menino ficou gritando que estava com a razão e que só iam levar comida pro Samirzinho quando ele quisesse.

O quê, pai? O senhor vai falar pro diretor Onuzildo? Iiiiih, vai adiantar muito não. Tem vezes que ele até faz de conta que está te dando razão mas, depois, vai dar razão pro Janjão. É porque a família do Janjão tem muita grana, dizem que são muito brabos e sustentam a escola. O senhor vai reclamar do menino? Sei se vai adiantar muito não, mas tudo bem. O nome do menino? Israel.”

PS.: Esse texto é uma forma de protesto pelos Samirzinhos que são obrigados a ficarem presos nos campos de concentração palestinos. E têm que ficar calados, passando privações calados, sofrendo fome e frio calados. E o mundo vai deixando isso acontecer com medo de traumatizar o menino. É também dedicado aos meninos e meninas que tentaram matar a fome do Samirzinho .


Responses

  1. Nossa, mas ainda bem, que o Samirzinho sempre encontrou uma saída… Excelente texo!


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