Publicado por: Eduardo Bezerra | Maio 27, 2010

Um momento estranho

Alcides: este exemplo já era mais que suficiente

Algumas coisas parecem estar destinadas a acontecer de maneira incomum. Hoje foi comigo. Tenho o prazer de, como biomédico, falar de saúde pública para meus futuros colegas de profissão. É um dos momentos mais prazerosos que tenho como sanitarista. A Biomedicina é um campo que ainda consegue se observar pouco no campo coletivo da saúde e isto contribuía para que me sentisse apenas um sanitarista. Minha reaproximação com a profissão se deu com o convite feito pelo Professor Paulo Miranda para integrar a diretoria do Instituto Nacional de Biomedicina.

As aulas eu já dava há alguns períodos, não era novidade. Entretanto, após esta nova atribuição na construção do INB, pude me perceber verdadeiramente como biomédico. Mas a questão não é essa. Eis que hoje, após a aula, pego a lista dos alunos para fazer a chamada e tomo uma pedrada. Sabe aqueles petardos que fazem sua cabeça girar e pensar em mil coisas ao mesmo tempo? Foi um desses. O primeiro nome da lista, acompanhado de traços de ausência, era o de Alcides Nascimento.

Não vou contar toda história, até porque o Brasil inteiro conhece o trajeto do filho de uma catadora de lixo assassinado em sua casa há mais de três meses. E era o primeiro nome. Meu coração ficou pequeno. Era pra ele estar ali naquela sala, aprendendo um pouco de saúde pública. Mas ele não estava. E é nesses momentos que você se dá conta de como a realidade do mundo é fria. Respirei fundo e chamei os demais nomes.

Eu falei com Alcides poucas semanas antes dele ser assassinado, por ocasião do Encontro de Verão da Biomedicina, organizado por Paulo Miranda em São José da Coroa Grande. Quando ele ligou pra mim, estava no Detran renovando minha carteira de motorista. Como ele tinha ligado de última hora, a van estava cheia e, infelizmente, não conseguiu a carona para a comemoração. Algum tempo depois, o próprio Paulo Miranda me ligaria dando a notícia de sua morte.

Pensei na época em escrever um texto sobre Alcides, mas não tinha a mesma convivência dos demais colegas da UFPE. Além do mais, meu coração não permitiria que eu escrevesse como o desconhecido que ele não era. Uma coisa, porém, eu pensei: existem pessoas que nascem para ser exemplos. Ele já era um, não precisava ser de novo. Muito menos por este motivo, muito menos naquelas condições. Incompetência do poder público, leis imbecis e caducas, uma sociedade entorpecida.

Entretanto, no caminho de volta pra casa, a rádio deu a notícia mais esperada nos últimos meses: o assassino estava preso. Justo no dia o qual me deparei com a presença ausente de Alcides. Coisa do destino? Não sei o nome, mas não foi por acaso. Na primeira aula que dei pra esta turma não houve caderneta. Por que será que apareceu uma hoje, justo no dia em que o ciclo se fecha? Não sei e nem creio que alguém possa explicar.

Obviamente agora vem o novo circo: o da justiça. Julgamento, advogados, fotógrafos e cinegrafistas. Repórteres se acotovelando por uma declaração de sua mãe ou irmãs. Independente disso, o ciclo fechou. O assassino agora é oficialmente o algoz de Alcides. Infelizmente, em pouco tempo, uma progressão de pena, indulto ou fuga o colocará na rua novamente. É o caminho natural da “justiça” brasileira. A mesma que impede um inadimplente de assumir um cargo público (e assim quitar sua dívida) e permite um político criminoso assumir as nossas representações (apesar do Ficha “Limpa”).

Hoje, na sala de aula, com a caderneta na mão, chamei Alcides em pensamento. Seu nome estava lá no papel. Ele não respondeu. Mas algo me diz que ele estava lá. Algo me diz.


Responses

  1. O melhor desabafo de um Biomédico sobre esse assunto. Precisava desse desabafo também e vc fez!
    parabéns Eduardo e que Deus ilumine Alcides

  2. Alcides, é a negação digna de todas as afirmativas de exclusão que o mundo frio e racional pôde produzir para justificar a marginalidade intelectual que submete milhares de jovens das periferias sociais a condições injustas de existência. Mas, nem isso é suficiente para freá-los. Com pose de indignados lucram com o lamento dos “inconformados”. Parabéns, pela inciativa e coragem de assumir a mística do seu texto.


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