Publicado por: Eduardo Bezerra | Maio 8, 2010

Até quando violência será (apenas) sinônimo de maldade?

Bem, esse aí faz justiça ao verbete maldade

Maldade. Segundo o dicionário Houaiss é “qualidade do que é mau; perversidade, malignidade, crueldade.” Um escape, uma desculpa, uma sentença. Além disso, mais nada. O que se pode fazer contra um sentimento? Como se agir diante daquilo que é tão etéreo frente a uma sociedade materialista? Creio que não muita coisa. É uma dispersão perigosa, permissiva de um sortimento incrível de interpretações. E quanto mais imagens, menos objetividade nas ações.

O crime cometido pelo segurança de um banco paulista na última quinta (06.05.2010), ao desferir um tiro contra um homem impossibilitado de passar pela porta de segurança em função de um marcapasso, esconde uma série de situações e mascaram possíveis reações da sociedade no enfrentamento à violência. Certamente o espaço será pouco, assim como a paciência de vocês, para desfilar todos os argumentos neste artigo. Por isso, ficarei restrito aos mais visíveis.

Manias de perseguição e teorias da conspiração à parte, em primeiro lugar é impossível não salientar o papel da mídia. Autointitulando-se a voz da população, seu objeto, claramente, é o espetáculo. O choro da viúva, o calvário do criminoso, as interrogações sem resposta finalizando as matérias. Nem se importam mais em demonstrar superficialidade. “É o tempo da velocidade”. Deve ser. Perder tempo apurando e cascavilhando aquilo que está perto da raiz dos problemas leva tempo e a concorrência não pode passar à frente. Aprofundamento só em cadernos especiais. E cada vez mais especiais. Bem, no resto das páginas e canais, é o espetáculo que manda.

O eixo da responsabilidade governamental não pode ser esquecido jamais. Não! Não é que tudo seja culpa dos governantes, mas temos que dar a César o que é de César. Quanto tempo mais negligenciaremos as pessoas que trabalham no ramo da segurança, tanto privada quanto pública? Demorará ainda muito tempo para cuidarmos da mente destas pessoas? Pressão, cobranças, baixos salários, más condições de trabalho, pouco treinamento e pouca retaguarda. Tudo isso para pessoas que carregam armas e são obrigadas tomar decisões rápidas, instantâneas, no intuito de defender a coletividade.

Um segurança de banco, sobretudo nos últimos dias, está sendo bombardeado por informações e pressão para coibir os crimes aos clientes. O último, apesar de velho golpe, é a carinhosa “saidinha”. Não basta apenas ele tomar conta do que acontece dentro da agência, sua atenção agora se volta para fora. Motoqueiros, office boys e clientes. Todos são suspeitos. Um trabalho assombrado. Explodir é uma questão de tempo. Será que um profissional desses é preparado para trabalhar com mais alguma coisa além do normal? Era um senhor de marcapasso. Para ele talvez tenha soado: “Será mesmo?” No meio da discussão o disparo. E a maldade.

O agente público ainda sofre mais um pouco. Atua do lado de fora, onde exposição é ainda maior. Tem todos os problemas dos seguranças privados. Só que em dobro. Até pouco tempo atrás saíam para trabalhar sem o recheio de seus coletes à prova de bala. Há vários anos atrás tive a oportunidade de ministrar um módulo de direitos humanos num curso de formação de cabos e sargentos. Fiquei penalizado ao ver profissionais com vinte, vinte e cinco anos de profissão, sem nunca ter passado por um serviço que seja de psicologia. São estes os mesmos que enfrentam as rebeliões nos presídios e correm atrás dos baderneiros das torcidas organizadas. Além disso, são obrigados a ver os bandidos que a Justiça manda prender serem soltos por ela mesma algumas horas depois. Primeiro frustração, depois a maldade.

Há ainda o paradigma econômico. Coisa de comunista, alguns podem pensar. Talvez. Tenho um pouco deste vírus nas veias. O cupim das terceirizações têm carcomido as entranhas das relações trabalhistas. Terceiriza-se os profissionais simplesmente pelo impulso de reduzir responsabilidades. É mais fácil de demitir, trocar de empresa e se livrar dos encargos. No caso do Bradesco de São Miguel Paulista, a responsabilidade pelo acontecido não foi do banco. É toda do funcionário e da empresa. Até porque a motivação para o crime bárbaro foi a maldade.

Ficamos ainda com o espírito de nossa sociedade. Esta mesma que escolhe os políticos e relevam suas faltas graves. Um mesmo conjunto organizado de pessoas que agregou a idéia de povo malandro, que interpreta as leis como um entrave a sua liberdade e não como uma proteção à sua integridade. A mesma sociedade onde os fenômenos são maturados e rapidamente suavizados. Revoltamo-nos porque achamos as leis brandas e insuficientes. Enlouquecemos ao ver um homicida condenado a mais de trinta anos não poder ir além deste tempo e ainda ver sua pena reduzida pelas benesses da lei. E ter direito a passar natal em casa e não voltar nunca mais para o presídio. E o que fazemos em relação a isso? Calamos e nos trancamos em nosso próprio cárcere.

Não estou inocentando o segurança. Independente das motivações e das raízes deste processo tão complexo, um crime foi cometido e há um homem prestes a morrer. Ainda sim algo deve ser feito para proteger aqueles que nos protegem. É um ciclo que acaba sempre voltando para nós mesmos. Fingir cegueira e desentendimento é, definitivamente, uma estratégia burra. Eu estou vulnerável, você está vulnerável, o governador e o presidente também estão vulneráveis. Pois é, até a família de Lula foi vítima recente desta coisa tão provinciana chamada violência.

Por quanto tempo vamos fazer de conta que tudo se resolverá com uma canetada? Até quando violência será (apenas) sinônimo de maldade? Ôpa! Fiz igual aos repórteres da Globo, finalizando com uma perguntinha infame e de resposta tão difícil. Perdão, mas a tentação foi grande!


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: