Publicado por: Eduardo Bezerra | Abril 26, 2010

Houve um dia na Serra do Ororubá…

No sopé do Ororubá

Tenho três cidades fazendo morada em minha alma. Em Recife nasci, construí a vida e um local para onde voltar. Em Taquaritinga cultivei amizades, vivenciei minha adolescência e pude usufruir verdadeiramente da idéia de liberdade e contato com a natureza. Mas houve dias onde eu buscava no sopé da Serra do Ororubá a energia para criar e nutrir minhas raízes. Naquelas bandas, vivi o amor puro de cafuné. É lá que minha mente ainda se abriga e aquece quando o mundo está frio e cinzento. E assim, entre três cidades, construí meus caminhos.

A primeira imagem de Pesqueira não está na cidade em si, mas na rodoviária do Recife. Esperando o ônibus com meus pais e minha irmã, sinto agorinha mesmo a ansiedade de me acomodar na janela pra esperar Ela chegar. Vem o cheiro de laranja cravo, pipoca e ouço o barulho das pessoas no antigo prédio, ainda sediado no Cais de Santa Rita. O ônibus saía deixando o Recife para trás. Caruaru me dava a noção da proximidade com o destino final. Algumas vezes chegávamos à noite e o marco de “Seja Bem Vindo” acalentava minha inquietude. Se era de manhã, procurava ansioso a pista do pequeno aeroporto com o “Pesqueira” escrito no telhado do galpão.

Os Bezerra (eu eu nos braços de Vera)

Mas meu destino final, de verdade mesmo, estava na Praça da Rosa. Aguardava o carro fazer a curva e reduzir até parar em frente ao meu castelo. Hoje existe um bem famoso e esquisito por lá, mas o dos meus avós era muito melhor. O motorista buzinava e não tardava a apontar dona Lourdes à porta. Logo após, num andar calmo, o velho Badu e tia Dete, também minha madrinha. Gosto de guardar cheiros, e o de meu avô nunca esquecerei. Há muito tempo ele me deixou aqui nesta terra sem confeito, careca ou cantiga do ai. Sem ele os pés de goiaba perderam a graça, eu passei comer toda comida do prato e me resignava até o final dos castigos. Só depois de muitos anos eu entendi ter sido esta a forma que ele encontrou pra ficar comigo todos os dias. Velho inteligente aquele.

Minha floresta particular era o quintal de minha avó onde chupava uva, romã, comia goiaba e pegava abacate pra tomar batido com laranja. Lá no final, uma cabeça de boi me dava medo e à noite me fazia passar correndo. Fantasiava tanto ali naquele mundo que nem sei quantos heróis eu fui e quantas mocinhas salvei. Lembro da casa cheia com meus pais, tios, primos e amigos ao redor da mesa tomando cerveja e eu comendo os tira-gostos. E toda vez que meu avô esquecia a janelinha da porta aberta aparecia um “bêbo” pedindo alguma coisa. Ao dormir, escutava o penico de ágata sendo colocado embaixo da cama pois o banheiro ficava do lado de fora.

Com alguns dos Duque

A Praça da Rosa que lembro não é a de hoje. Tinha um tanque cheio de água barrenta onde quase toda Pesqueira ia se banhar nos domingos. Entrei lá algumas vezes com meu pai. Pra mim era de fundura interminável e só ele podia entrar ali comigo. A primeira vez que vi o tanque soterrado, com um balanço por cima, senti uma dor de morte, como se meu oceano tivesse secado. Gostava dos brinquedos, mas o espírito do piscinão era mais divertido.

Fui batizado na Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens onde, despachado, preparei uma de minhas primeiras “aparecenças”. Acompanhando Dona Lourdes à missa do bispo, no momento da primeira leitura, o sacerdote ficara esperando um voluntário. Ninguém se apresentou. Eu, um pitoco de gente recém-alfabetizado, dirigi-me ao púlpito bem maior que eu e fiz a leitura para uma platéia muda. Deve ter sido uma das maiores alegrias da vida de minha avó ser chamada pelo Arcebispo para que ele abençoasse seu neto. E sempre, no caminho pra igreja, ela sempre apontava a casa dos pais de meu padrinho, hábito que peguei e repeti com meus amigos e esposa.

Por falar em Simone, foi na saída de Pesqueira, na volta de Afogados da Ingazeira, onde participávamos de um projeto de extensão da Universidade, que demos nosso primeiro beijo. Sei lá? Deve haver um motivo pra ser ali. De lá pra cá são onze anos juntos. Nem creio que ela lembre, mas foi na frente do aeroporto, o mesmo a anunciar e dispersar a cidade. Foi na Serra do Ororubá.

Criança ainda participei do show na Festa de Santa Águeda. Estava com Tica e Tide, meus tios, e Valéria, Neném e Vera, minhas primas. Cantei, participei dos desafios no palco e no final ganhei um prêmio em dinheiro que torrei todo na banca de revistas da rodoviária. Minha tia me levava pra sentar no balcão das Casas José Araújo e brincar na vitrine dos brinquedos. Passava na praça central para ver o jacaré que vivia por lá. O danado desse bicho me seguia até lá embaixo, pois meu avô falava que o reservatório de água do quintal ia dar lá no tanque do jacaré. No fim do ano passado estive lá em casa e percebi ainda ter medo do animal.

Praça da Rosa. Um final de ano.

Mas o que eu lembro com todo detalhe de minha memória é do fim de ano. Sagrado, todo ele era lá. Chegávamos um dia antes, a tempo de escutar o glugluzeio do peru e combinar com os amigos a nossa tradição anual. Antes do romper de ano, por volta das dez e meia, saíamos todos os pivetes da praça pra comer pizza lá no centro. Nos sentíamos os mais adultos dos adultos. Pedíamos nossa pizza, comíamos, catávamos os caraminguás e voltávamos antes das luzes se apagarem. Sim, à meia noite em Pesqueira toda cidade se apagava. Ficavam os fogos, o choro de emoção, os gritos, a alegria e a esperança de um novo ano sempre melhor. Eu sempre corria da casa de minha avó por causa do chororô do meu pai. E todo mundo se encontrava de novo na sala da casa da Gorda, pra pegar uma fruta e fazer um pedido. Quantos foram realizados? Muitos, graças à Gorda. Um beijo de Creuza, um abraço em Dona Biu, um aperto de Tiai, cumprimento pra Seu Pitoca. Não riam, era assim que todo mundo saudava ele. Foi o homem mais sério que conheci. Eu vi meu avô sorrir mas não vi Seu Pitoca.

Minha tia, Martins e eu. Meninos de Lulu, muito tempo atrás.

Depois seguíamos pro Xucuru, ou pra Cohab ou pra onde meus avós maternos estivessem morando ou comemorando. Via uma ruma de parentes, pedia a bênção de Lulinha e Zó, descia pra praça central. Dava uma banda por lá e descia pra Rosa, onde meus amigos já estavam todos reunidos. Até de manhã. Dia seguinte, RO, resto de ontem. Lá, vi Martins de braço, Bebé de braço e eles hoje a me levarem no braço.

Fui catraia, saí atrás dos Meninos de Lulu, fui melado pelo Bloco do Óleo, brinquei nos Fuzarqueiros, acompanhei o Cai o Frasco e vi o Lira dos cochinhos. Eita Carnaval bom! Olinda que me desculpe, mas não dá nem pro cheiro. Brincava na rua, no bloco, no clube. Brinquei criança, adolescente e adulto. Toda vez que chega o carnaval é Pesqueira a tocar no meu coração. “O Lira da Tarde sobe e desce ladeira, agita toda Pesqueira, faz poeira no ar”. Tinha bloco de cangaceiro tocando xaxado, a velha guarda com os frevos antigos e uma ruma de gente rodando na cidade.

Lá me despedi de Lula e Dona Lourdes. Guardei Tica, Luiz Badu e Zorilda. Lá ficou Tata e tanta gente saudosa e bem guardada no peito. Minha Pesqueira se foi, a que está lá é outra, ainda bonita, mas outra. Se Ítalo Calvino sentisse minha alma, criaria mais uma cidade da lembrança. Pois foi na lembrança que Pesqueira ficou eterna. Não mudo nada. Não troco as pedras da Praça da Rosa por asfalto, não tiro o Jacaré da Praça nem o carnaval do Prado. Sentir saudade é bom. Faz a gente lembrar que somos feitos de partes dadas por outros a nós. Tenho muitos pedaços de lá. E assim, levarei Pesqueira até meu último dia…

PS.: Este texto é dedicado a Walter Jorge, colunista da Besta Fubana, de quem brotou uma conversa saudosa por meio dos comentários de uma de suas postagens na gazeta da bixiga lixa.


Responses

  1. vixe dudu q eu até chorei, q kg de emção q veia tão artística é essa???meu fio a lapidação do mundo em vc hein??to tao orgulhosinha,rsrsrs um xero

  2. Eduardo Bezerra, parabéns pelo excelente comentário. Sendo Pesquerista e lá tendo passado a infância e boa parte da adolescência, sua crônica traz de volta algumas lembranças da tão querida terra, quase me fez chorar ou será que chorei?
    Que sou eu – Meu nome é Gilmar Mathias e conheço vc. desde o nascimento, conheço seu pai, sua mãe, sua tia( que figura) e principalmente o saudoso tio e avôs. Vc tem razão, seu Luiz Badu era um homen de muita sabedoria. Estou feliz pelo seu sucesso, parabéns e um forte abraço.

  3. Que bom, Gilmar. Essa internet é uma coisa boa danada, guarda as lembranças da gente de uma maneira que o cérebro da gente nem conseguiria. Tenho lembrança sua com Lula, naquelas gaiatices intermináveis. Um grande abraço e passe sempre por aqui.

  4. Amigo Eduardo, você foi longe. Deu-me uma rasteira daquelas. Fiquei sem jeito. Emoção total. Mas nada é impossível para o pesqueirense. Você vem uma família que eu conheci e não fiquei suspreso com o que você escreve em relação à terra de seus ascendentes. Conheci seu LUIZ, na fábrica Rosa, onde trabalhei de 63 a 66. Já com o seu pai, tive pouca convivência. Ele era mais novo de que eu e cedinho, foi estudar na capital. Depois fixou residência em Taquaritinga, mas não esquecia a terrinha. Converso sempre com Zé Nunes e isto me faz lembrar de Lula, sereno e educado. Bernadete é minha amiga e juntamente com o esposo, acompanhava sempre as nossas rodas de choro na antiga Rosa. O que posso dizer é: MUITO OBRIGADO pela homenagem que me prestou. Vou imprimir para mostrar aos amigos com muito orgulho.

  5. Relembrando:
    Nós:-Vô, canta a cantiga do Ai.
    E ele dava um leve beliscão.
    Nós: AAAAAAAAAAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…
    hehehehehehe…Era muito bom. E quantas e quantas vezes ele repetia isso.

  6. Ah, e as siriguelas também. A gente ficava de boca amarga de tanta siriguela. Brincávamos com todos os brinquedos possíveis das casas josé araújo. Na praça da rosa a gente brincava tanto que ficava com a cabeça cheia de areia, nós pretos, ficávamos brancos. Minha tristeza foi perceber que as pessoas não ficam conosco eternamente, infelizmente o tempo passa, a gente cresce, as pessoas morrem. Mas saudade está aí pra que não esqueçamos desses momentos. Nós tivemos uma infância maravilhosa e pessoas maravilhosas ao nosso lado também.

  7. olá, estas palavras me deixaram com mais saudades de minha terra natal pois, foi como se estivesse vendo a minha infancia sendo revelada.
    hoje moro em Brasília sou confeiteiro e formado em História. Sempre que tenho tempo vou em Pesqueira ver meus amigos e parentes; olha que são muitos, e sua maioria é na Rebeira de Pão de Açucar e na Serra do Ororubá. Lá vivi os melhores dias de minha vida, mas não dava valor.
    obrigado por falar tão bem de nossa cidade

    • QUANTA SAUDADE GENTE, QUASE QUE MORRO POIS VIVI MUITOS ANOS EM POUCOS MINUTOS TENHO 70 ANOS MORO EM
      SÃO PAULO NASCÍ NA PEDRA REDONDA ME CRIEI NA PITANGA FALAR DA FABRICA ROSA,LUIZ BADÚ, DIRCEU DA MOTA VALENÇA,E SEU ZÉ CEZARIO MEU QUERIDO PAI E DA MINHA INFÂNCIA QUE SE FOI ,E RESTOU A SAUDADE DA PRAÇA DA
      ROSA UM GRANDE ABRAÇO A TODO O POVO DE PESQUEIRA
      DE ONDE SAI AOS VINTE ANOS DE IDADE QUERO DEIXAR UMA SINGELA HOMENAGEM A PROFESSORA DONA DIDIA DE SOUZA VALENÇA DO ANO DE 1954 NO SESI DA PITANGA
      LUIZ CEZARIODE SOUZA ( BULUCA)

      • ô, Luiz. Que bom ter proporcionado esta viagem pra você. É muito bom lembrar o passado e saber que a felicidade é possível só porque já a vivenciamos. Um grande abraço.


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