Publicado por: Eduardo Bezerra | Abril 19, 2010

Mandrake!!!

Stedile: desse eu tenho um medo danado

Hoje, 19 de abril do ano de 2010, às nove e meia da manhã, volto para casa com o Recife parado novamente. Não creio que exista manifestação maior da liberdade que o direito de ir e vir. Expressar sua opinião sem ser censurado é um direito importantíssimo, mas não garante a escuta atenta e respeitosa de suas idéias. Fazer ouvido de mercador também é um direito o qual lançamos mão.

A liberdade de circular, quando exercida livremente, independe da vontade alheia. Talvez por isso ela seja utópica, talvez uma fantasia. Lembro de meu amigo e pesquisador da mobilidade urbana, Paul Nobre, ao demonstrar um dos ciclos da exclusão e miséria. Uma das características da pobreza é a ausência de recursos e são estes mesmos pobres que moram mais longe, necessitam mais de transporte público e pagam mais por ele. Resultado: a senzala hoje não tem muros, é definida pelo poder econômico.

Ao ver o que faz o protesto do Movimento dos Sem Terra hoje na capital pernambucana, fico pensando se a idéia deste tipo de estratégia não seria esfregar em nossa cara que esta liberdade não existe. Até porque meu direito de ir e vir não é opcional. Houve um tempo no qual havia preocupação em se obter apoio popular na luta pelo seu direito. Por mais que os teóricos tentem complicar os conceitos, a idéia básica da democracia é a vontade da maioria. Hoje não, você está sujeito a ser refém. E vence quem grita mais alto.

A luta pela terra em um país de alta concentração fundiária é legítima. Temos uma das maiores concentrações de renda do mundo e algo precisa ser feito. O problema é a forma como se protesta. Não há sensibilização da sociedade. Para falar a verdade, não há sensibilização nem de seu próprio grupo. Não há novidade na mobilização de uma massa de manobra, um batalhão robotizado de pessoas andando em fila indiana sem nenhuma possibilidade de ascensão dentro do próprio movimento.  Além de ser extremamente machista.

Tente defender o seu direito a se movimentar livremente pelo espaço público ocupado por eles. Presenciei isso diversas vezes. Ninguém me contou, eu vi. Mas para tudo há uma justificativa, uma tese em questão. E há outras questões muito mais sérias, criminosas, que contam com a adesão de diversos setores influentes da sociedade, de nossa “elite pensante”. Adesão não pelo estímulo, mas pelo que afirmava o Bispo Desmond Tutu: “Quando você diz que é neutro em relação a uma injustiça ou opressão, você decidiu apoiar o status quo do injusto.”

Hoje, enquanto ouvia a rádio para ter idéia do que acontecia e se eu conseguiria sair de casa, ouvi a entrevista de um dos líderes do movimento dizendo que um dia a população ia agradecer por aquilo que estava acontecendo. Bem, outras pessoas disseram o mesmo. Hitler certamente afirmou que o mundo iria agradecer o extermínio dos judeus, ciganos, homossexuais e tantos outros impuros. Quantos homens não batem em suas mulheres alegando que elas agradecerão no futuro? Os generais da ditadura justificavam seus atos na defesa das gerações futuras. Este é o tipo de discurso que não cola.

Quando vejo o MST se apoderar de uma causa justa, necessária e legítima, lembro da Revolução Francesa. Ao final do século 18, a burguesia, mantenedora dos luxos da família real, seduz o povo com o ideário da liberdade, igualdade e fraternidade. Derrubam os reis, cortam-lhes as cabeças e, na hora H, aquela de fazer a mudança, trazem a monarquia de volta para lhes ensinar a usar garfos e dançar o minueto. O MST parece funcionar da mesma forma: seduz uma massa ignorante e analfabeta com a promessa da terra prometida, faz-se ouvir pelos poderosos e, na hora de cumprir a promessa feita, prostitui-se junto aos partidos políticos de seus interesses.

Sou um militante de esquerda, sim. Definitivamente. Mas não sou cego. Muito menos tenho veiculação política ou ideológica castrante ao ponto de me forçar a fechar os olhos para os erros graves dos dirigentes do Movimento. Será que as denúncias e indícios de corrupção são apenas produto de uma mídia golpista? Quem conhece pelo menos um pouco, sabe que não. Tenho pena desses trabalhadores rurais tão mal representados por líderes demagogos. Nesse caso os dirigentes são muito maiores que o MST, até porque é por obra e graça deles que o mesmo se mantém.

Há muitos movimentos sérios, Organizações seríssimas. Conheço, trabalho e já trabalhei com várias. Muitos de nossos direitos em relação à liberdade, saúde, direitos humanos, redução da desigualdade se dá por suas atuações (ou alguém pensa que é por obra e graça de algum político bem intencionado?). Mas o MST, pra mim, já está dando nos nervos. Não sei o motivo pelo qual as outras entidades se calam diante de um grupo que está sendo um dos responsáveis mais visíveis no questionamento injusto da ação das ONG.

O que torna esta situação do MST insustentável é a sua prostituição política e econômica. Não sou contra o acesso ao recurso público, desde que haja um projeto coerente e uma fiscalização eficiente. Para onde foi a investigação das terras da reforma agrária negociadas logo após a posse da terra sair em Goiana? Onde estão as prestações de conta da verba recebida dos ministérios? A luta não é pela incorporação das terras improdutivas? Por que destruir laranjais produtivos ou experimentos da Embrapa? Desculpem-me, foi mais forte que eu.

Mandrake!!! São nove e meia da manhã. O Recife está parado.


Responses

  1. Graças ao seu comentário sobre a minha crônica, descobri o seu Blog e entrei sem pedir licença. O pesqueirismo não deixa que as pessoas, mesmo morando longe, sintam-se desligadas das origens. Obrigado pela leitura do modesto texto.
    Não consegui identificá-lo e fiquei curioso para saber quem é você.
    Abraços.
    Walter.


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