Publicado por: Eduardo Bezerra | Abril 10, 2010

Deixou a festa rolar… E agora, companheiro?

No Recife nem precisa mais chover: É só esperar a maré subir.

Se fosse possível escolher uma característica para a classe política brasileira escolheria a ignorância. Esta, por sua vez, não tem nada haver coma falta de escolaridade tantas vezes evocada de forma jocosa, beirando e mergulhando no preconceito. A ignorância que cito aqui vem do desconhecimento. Não um desconhecer despreocupado, advindo simplesmente do não pensar em algo. Este existe também. Mas falo do desconhecimento maldoso, opcional, o lavar as mãos consciente, a escolha pelo não saber.

O companheiro Lula agora há de colher o fruto de sua ignorância, assim como tantos outros. O Brasil se ressente de políticos com política nas veias. Aqueles que, de tanto conhecerem e se aprofundarem no jogo, são mestres do protagonismo representativo. Quase filósofos. Destes tivemos há muito tempo, numa época que o Estado excludente os requeria como contrapeso para os seus desmandos. Hoje, nenhum. Temos o atabacado do Suplicy, a austeridade insosa de Pedro Simon, a Marina uniproposta e, talvez, só.

Quando surgiram os vídeos da prostituição política  no Distrito Federal teci um comentário que já havia feio no caso do dinheiro escondido na cueca. A gente até sabe como as coisas acontecem, mas presenciar, visualizar o ponto onde as pessoas chegam, o rastejamento, o migalhar pela esmola do corruptor, isso é de uma dor enorme. Dói por saber que aquelas pessoas soterradas sob lixo e chorume de Niterói estarem mortas pela negligência de indivíduos como estes.

Votei em Lula e, apesar de tudo (além da falta de opções viáveis), votaria novamente. Não há como negar o seu sucesso no fortalecimento do Brasil no cenário internacional, o estrado reforçado da economia, a evolução no combate à desigualdade. Uns dizem que isso só foi possível por conta do governo de FHC. Concordo plenamente. Mas Lula teve a coragem que outros nunca tiveram, ao manter as bases estipuladas ainda na época de Itamar Franco. Bem, Fernando Henrique teve oito anos para viabilizar o sucesso de sua teoria econômica e não teve capacidade para fazer. Isso é fato.

Por outro lado não dá pra simplesmente colocar o que se foi conquistado de um lado da balança e soldar o prato no chão. O vácuo ético, a jogatina política, a troca de valores e a festa dos desvios são demais para qualquer militante da esquerda. O presidente levou para o Planalto a forma pequena de se fazer política dentro dos sindicatos. Pisa no mais fraco, bajula o mais forte. Não importa a linha ou veiculação ideológica. A monarquia da esquerda é capaz de fazer com os seus coisas que nem o mais escroto direitista faria com os dele. O negócio é agregar. Transformar Ministérios em feudos dos partidos, distribuir cargos em troca de votos e apoios, abrir mão de um projeto de sustentabilidade e jogar com a necessidade da população. É dureza!

E agora, no meio da catástrofe carioca, uma aula de como não se administrar uma situação é dada para quem quiser ouvir. Isso porque o ministro responsável por esta infraestrutura era o baiano Geddel. O mesmo que construiu um belo duto por onde correram milhões de reais para seu estado natal. Milhões destinados a obras de proteção de barreiras, retirada de moradores em áreas de risco. Mais da metade do recurso do país foi brincar carnaval na Barra-Ondina. Não quero nem falar do Rio de Janeiro, mas se chover na Bahia vai ter tragédia. Por quê? Oras, alguém acha que, com o currículo de Geddel, o dinheiro foi pra algum morro baiano?

Enquanto isso, o prefeito de Niterói reedita aquela máxima ensinada magistralmente por Arruda. Se não puder correr, assuma. Mas assuma com ar solene, soturno, a tristeza tatuada no rosto. Assuma com todas as forças a sua culpa, isso porque não existe outro a quem culpar. Não faça como o Sérgio Cabral ao responsabilizar toda sociedade por morar em morros onde a segurança não é importante, mas cobrar luz, água, IPTU e telefone são. Realmente, governador, a culpa é de todos. Mas onde estiveram as obras quando, há algumas semanas, o sol queimava a quarenta graus?

Agora está aí e não virão outros Niteróis. Assim como afirmei com o Haiti, cada situação sofrerá em sua própria via crucis. Nenhuma comparação entre tragédias será justa, muito menos moral. Não aprendemos com Santa Catarina no ano passado, não aprendemos com a cidade de São Paulo em todos estes anos de alagamentos e não aprenderemos com o estado do Rio de Janeiro. Aqui em Recife, onde o antigo prefeito conseguiu fazer obras importantes nos morros da cidade, temos até o exemplo de como converter períodos chuvosos com dezenas de mortes anuais em quase nenhuma nestes últimos anos. Mas foi com o prefeito anterior. Porque esse fica da janela do 9º andar do Cais do Apolo a observar o mais novo fenômeno vanguardista pernambucano: as enchentes sem chuva. Para nós, recifenses, o medo é diário. O medo agora é da maré.


Responses

  1. Caro Eduardo,
    Excelente postagem. RecifeXChuvas, uma mistura perigosa e se a maré subir, Deus nos acuda!
    Aguardo a sua visita ao Blog 14-F http://geraldobarbosa43.blogspot.com/
    Um abraço.
    Geraldo Barbosa


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