Publicado por: Eduardo Bezerra | Março 13, 2010

Valeu, Glaucão!!

Eita mundo que vai ficando chato!!!

Conheci a obra de Glauco ainda adolescente. Enquanto boa parte dos meus amigos achava que quadrinho era Disney e Turma da Mônica eu tinha descoberto uma outra forma de humor com a turma do Chiclete Com Banana e Mad. Agradeço do fundo do peito ter tido contato tão cedo com a verborragia malemolente, a sacanagem-arte e o humor-malandro feito pelos grandes mestres dos anos 80.

A Mônica nunca foi minha musa e nunca quis ser o dono do Pluto. Preferia Los Três Amigos correndo no meio do deserto a fugir do encaralhado Don Picón, as maldades dos Spy vs Spy, a depressão hilária da Rê Bordosa, a queimação de orégano de Wood&Stock e a saga virginal do Geraldão. Glauco, Algeli, Laerte, Quino e Don Martin são entidades que ajudaram de forma irreversível a deformar o meu caráter.

E deformar é realmente a palavra certa. Foram eles que me vacinaram ainda muito cedo contra o vírus imbecilizante do politicamente correto. São caras como esses que ajudam o mundo a não se tornar um lugar asséptico e sem tesão, como é o desejo de muitos idiotas de mente reta, alma reta e vida reta, numa retidão completamente dispensável. Glauco foi uma das pessoas que salvou o meu mundo de ser um lugar chato.

Apesar das drogas, neuras, putarias e tudo mais que pudesse fazer um cartunista vulgar, ele veio de uma escola que transmitia o submundo de forma bem singela, se for possível usar esta palavra. O drogado do Glauco era um drogado de verdade, com overdose, paranóia, loucura, depressão. Não era a glamurização da droga, fazer do personagem um cara descolado, cheio de possibilidades. Geraldão era um cara virgem, solteirão e que morava com a mãe. Dói Jorge vivia em paranóia, assim como tantos outros.

Mas Glauco fazia humor e como todo humor tem que ser, era cruel. Ninguém gargalha de uma criança dando os primeiros passos, mas se ela cair no meio do aniversário com a cara no bolo, isso vai ser falado até o último dia de sua velhice. O humor é a consciência de nosso ridículo. Por que não há humor politicamente correto? Porque é chato, é pobre e insoso.

Glauco morreu pelas mãos da grande piada de um mundo tão cruel como o humor. E esse é o risco de ser humano e falível. Aquilo que nos faz rir em algum momento nos fará chorar. Aquilo que nos faz amar em algum momento pode virar ódio. É a ordem natural das coisas: só se desgosta do que foi precioso um dia. O mundo só não pode ser indiferente, contaminado por um desejo de igualdade nos moldes do Playmobil. Sejamos iguais em direitos, porém diferentes em desejos.

Glauco não foi porta-voz de nada. Não o conheci, mas creio que nem o desejava. A bandeira é para os intocáveis, puros de espírito e virtudes. Ele era um escroto e cada personagem que criava tinha um pouco de seu mundo real. Quem não conhece uma Dona Marta, velha meio tarada e doida pra dar um funfadinha? Ou um Casal Neuras? Você nunca teve um amigo pessimista como o Zé do Apocalipse?

Ainda ficaram Laerte, Angeli, Adão e Gonsales e surge o pessoal do Mundo Canibal. Mas tenho medo e pena das gerações seguintes entregues a um conjunto de desenhos japoneses sem a mínima graça. Será que estes jovens terão a capacidade de sorrir adiante? Não sei, o mundo é um mistério e as gerações presentes sempre acharão que os mais novos estarão perdidos. É assim desde o princípio dos tempos: os mais velhos condenando os jovens à perdição.

Valeu, Glauco! Adoro esta minha mente perturbada da forma como ela é. Obrigado pela sua contribuição na minha forma de ver este mundo um pouco mais divertido mesmo quando os outros não acham graça nenhuma dele. Sem você e seus personagens por aqui sei que me sentirei um pouco mais só.

E já que não tem jeito, o negócio é espocar a silibrina mesmo!!!


Responses

  1. Pois é meu amigo…como já compartilhamos antes (e, no meu caso, parece mais assustador,rsrsrs) não fomos crianças/pré-adolescentes tão “padrão…

    Sempre detestei a “fotografia” dos quadrinhos Disney, mas “curtia a depressão hilária da Rê Bordosa (…) e a saga virginal do Geraldão”, mesmo na versão (em P&B mesmo!) que Tio Rael, não sem reclamar que “aquilo não era coisa pra menina”, apresentou-me.

    Lamento ainda mais uma morte desse tipo, pois, contribui um bocado para o distanciamento das pessoas com as coisas ligadas a fé…


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