Publicado por: Eduardo Bezerra | Fevereiro 10, 2010

Vinícius x Polanski (ou justificando o injustificável)

A Garota de Ipanema: clássico nascido e alimentado nas tetas do governo

Acabei de ler uma notícia na internet bastante curiosa. “Câmara promove Vinícius de Moraes ao posto mais alto da diplomacia” (http://noticias.uol.com.br/politica/2010/02/09/camara-promove-vinicius-de-moraes-ao-posto-mais-alto-da-diplomacia.jhtm). Isso bem que poderia passar despercebido se não tivesse assistido há algum tempo um Programa Ensaio com o mestre brasileiro do violão, Baden Powell.

Bem. Antes vamos ao fato mais recente. Vinícius de Moraes, conhecido como Poetinha, e mais conhecido ainda como um dos pais da “Garota de Ipanema”, também foi diplomata. Em 1968 ele foi destituído de seu posto pelo governo militar de um Brasil já em ares de ditadura. O motivo da dispensa foi, no mínimo, curioso: alegavam os militares que o mesmo não se dedicava às suas atribuições devido à vida boêmia. Talvez o falatório tivesse caído em esquecimento se não fizesse parte de um pacotão de dispensas que atingiu outros 40 diplomatas em uma clara demonstração de perseguição política.

Hoje, o governo brasileiro, sob a pretensa égide do resgate da cidadania perdida, comete, ao que parece, um enorme erro. Sem dúvida nenhuma a motivação política foi real e bastante forte pois o não comparecimento ao emprego de um funcionário público de alto – o qualquer – escalão nunca foi motivo de exoneração no Estado brasileiro. Pelo contrário, sempre foi a prática corrente. Uma característica facilmente reconhecível de nossa identidade nacional.

O que tem Baden Powell e o Programa Ensaio haver com isso? Tudo. Em uma entrevista dava no intervalo entre duas músicas, o violonista sai com uma revelação (que nem era tão nova assim, tendo em vista a mesma ser contada em meio a gargalhadas nas rodas boêmias do Rio de Janeiro). Logo após conhecer Vinícius, o mesmo propôs que ambos trabalhassem em uma música que vagava na cabeça do poeta/diplomata. Após esse encontro Baden Powell foi ao seu encontro e, no apartamento ficaram trancados quatro meses. Segundo o próprio instrumentista, Vinícius não ia ao Itamaraty, ele despachava de casa por intermédio da secretária.

Graças às conquistas da tecnologia vocês não terão isso por minhas letras simplesmente. Vejam e ouçam no vídeo abaixo. Quem não tiver paciência, pode avançar aos 3:00 minutos.

Tá, Baden Powell já foi explicado, e Polanski? Obviamente que o crime de Polanski é infinitamente mais grave. O cineasta foi condenado por ter mantido relação sexual com uma menina de 13 anos. Depoimentos dão conta de que o encontro foi consensual. Isso, porém, não importa muito. Com ou sem consentimento da menor, sexo com crianças (a idade  depende do país em questão) é considerado estupro. Durante a prisão de Polanski na Suíça, um séquito de amigos e fãs protestou indignado contra o ato. O país europeu tem um tratado de cooperação com o governo americano que o permite deter condenados pela justiça americana.

O fato é que o crime do renomado cidadão parece ter sido relevado, relativizado. Engraçado que essas acusações só foram assim recebidas devido ao fato de ser o Roman Polanki. Centenas de situações parecidas acontecem todos os dias e ninguém faz o mesmo questionamento. O cineasta alega que seu julgamento foi manipulado e ele decidiu fugir por se considerar injustiçado.

Bem, eu moro em um país onde todos os marginais choram e se dizem inocentes. Perguntem ao Cardinot. É, na lei americana os crimes não caducam e, não é o réu quem decide se o mesmo é culpado ou não.O crítico de cinema Rubens Ewald Filho (aquele chato pseudointelectual que me fez perder alguns filmes bons porque o pessoal não falava difícil nem sabia fazer cara de paisagem) tem como argumento de defesa do franco-polonês um documentário abordando o fato. Quem tiver interesse no artigo dele dê uma olhada aqui: http://blogs.r7.com/rubens-ewald-filho/2009/09/28/polanski-preso/

Voltando ao pai da Garota, aquela de Ipanema, se eu fosse responsável por dar a palavra final sobre o assunto não permitia este benefício póstumo. Primeiramente ele não foi contratado para ser boêmio nem compositor, por mais genial que ele fosse nas duas artes. Sua função era a diplomacia e esta, parece-me, não foi cumprida a contento. De forma alguma eu ou qualquer um de vocês contrataria uma pessoa que não comparece ao trabalho. Isso é coisa da mãe governo. Ainda assim, certamente haverá quem defenda este ato com mais ou menos entusiasmo.

Na realidade, pra mim, tanto faz se conferirem esta benesse póstuma ou não. Aparecer com dinheiro público é algo que se faz todos os dias há muito tempo. Tanto o episódio de Vinícius quanto de Polanski nos mostram a importância de termos bons amigos. Um tio já falecido muito acertadamente me disse que é preferível ter bons amigos a muito dinheiro. Se tiver os dois, melhor. A prova maior disso é que sempre haverá alguém indignado a te defender, com lágrimas nos olhos, dizendo que as coisas não são bem assim. Neste mundo, infelizmente, da boemia ao estupro, tudo tem justificativa.


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