Publicado por: Eduardo Bezerra | Fevereiro 6, 2010

Pernambuco e o Melhor Carnaval do Mundo

É chegada a hora de nossa Atlântida emergir.

Será o povo pernambucano uma espécie megalomaníaca? Realista, alguns argumentam. Sei que a polêmica ganha novo capítulo sempre no mês do carnaval. Nossa festa máxima, durante muito tempo foi brincada em forma de tábula redonda onde só os dignos poderiam gozar deste privilégio. Apenas nós, os pernambucanos, parecíamos merecedores desta honraria. Na festa de Momo, por incrível que pareça, demonstramos simultaneamente toda nossa alegria e tradicionalismo.

Às vezes tenho a impressão que Pernambuco seria o único lugar no mundo a sustentar uma monarquia com todos os elementos que ela deve ter. O conservadorismo das bandas de cá muitas vezes é bem mais arraigado que aquele responsável pela imagem da rainha Elizabeth II na Inglaterra. Temos os nossos reinos e nos orgulhamos muito de suas tradições. Na festa de Momo todos saímos às ruas em busca de um estandarte para jurar amor eterno e reverenciar nossos reis e rainhas nagôs.

Temos também os nossos segredos, tão proibidos quanto os códigos da maçonaria. Quem haverá de questionar o tamanho do cortejo infindável do Galo da Madrugada? Diversas autoridades tentaram algumas vezes. Em vão. Não compreendem os materialistas que continuamos também a contar aqueles que a burocracia normalmente não levaria em consideração. Ou vocês acham que Enéas Freire ou Capiba tiraram férias de seus respectivos séquitos?

Relativamente a pouco tempo aceitamos o desafio de mostrar esta maravilha para o mundo. Mais protegida que a fórmula da Coca-Cola, os mistérios de nossa folia não tardaram a chegar aos quatro cantos do planeja e rivalizar com os carnavais-publicidade do Rio e de Salvador. Mostramos que nossa festa não está apenas em Recife e Olinda. Onde tiver gente e lata pra bater, em Pernambuco, há folia. E folia boa, animada. Bezerros, Vitória, Nazaré da Mata, Pesqueira e tantos outros.

Somos sim o melhor carnaval do mundo porque somos vários. E sabemos ser vários. Não forçamos esta variedade, não o fazemos por força do mercado ou da política. Inclusive temos uma dificuldade enorme de vender o que é nosso. Até porque é legado e legado se deixa. Entregamos de bom grado. “Quer um pouco? Venha comigo, entre no bloco! É de graça! ” Só não podemos revelar tudo de uma vez, a inveja é coisa que, quando não aleija, deixa cicatriz.

Ainda assim, nem tudo são flores neste mundo de fantasia. Quem nunca sofreu com os calos e bolhas nos pés, a insolação, a falta de lugar nas barracas de bebida, a cerveja quente e o flanelinha ladrão? Ah, é o ônus de quem ousa perigosa e inconsequentemente viver esta fantasia toda. Os mais religiosos dirão que isso é coisa do demônio. Bem, se for, desta vez ele acertou em cheio.

E deve ter sido por obra do cramulhão mesmo. Só uma alegria tão grande poderia preceder o recolhimento da Semana Santa. Até porque o fundamento da religião é controlar a felicidade, a satisfação. Não sou ateu, mas não sou cego. Só pecando muito poderíamos pedir perdão de forma tão compenetrada e efusiva. Momo, o deus grego do riso, nos permite cometer todos os pecados capitais de uma vez, exceto um: a preguiça. É muito pouco tempo pra se perder dormindo.  Deveríamos ser como os chineses com seu próprio ano novo. O nosso reveillon deveria ser na terça-feira gorda. Não dizem que, no Brasil, o ano começa depois do carnaval? Pois então, que seja. Pelo menos a quarta-feira não seria mais de cinzas e sim a entrada de um novo período. Além do mais, seria motivo pra comemorar mais um pouquinho.

Nosso carnaval é desesperado, ofegante, apressado, molhado, melado. Parece que estamos sempre atrasados, buscando atracar em um lugar que nunca chega. Talvez porque o carnaval seja uma viagem. E o bom da viagem está na estrada, não na rodoviária. Enquanto há caminho há vontade de chegar. Há necessidade de abraços, carência de sorrisos e abstinência de beijos. De maneira bem sovina guardamos tudo isso durante um ano inteiro pra distribuir no nosso carnaval.

Em Pernambuco é possível colocar o braço no ombro de um desconhecido pra curtir o Hino do Elefantes. Abrimos nossas cirandas com gente que nunca vimos. E quando a música termina e a roda se desfaz, ficamos morrendo de saudade de não sei o que. Nossa música é forte, ecoa em clarins, retumba no batuque e segue o pau e corda. O autofalante ainda não é universal. Pra brincar, muitas vezes, é preciso estar perto de onde o chamado ecoa.

E quando vai chegando a meia-noite da terça os olhos vão enchendo de lágrimas e começamos a lutar contra o sono pra não ter risco de acordar. E frevamos, buscamos o batuque até a hora em que o corpo não mais suporta. Vamos pra casa contrariados, olhando pra trás e relutando em aceitar o esvaziamento das ruas. Mas, justamente nessa hora, sempre aparece um bêbado no meio do caminho pra nos acalentar vocalizando o Hino do Vassourinhas. O enigma da quarta-feira é o mais simples de se compreender: o dia é de cinzas porque a alegria acabou. Agora é só realidade.

Se um dia alguém se perguntou se há uma democracia perfeita, eu respondo. Há uma terra, em um país chamado Brasil, onde a alegria emerge de tempos em tempos, como no reino perdido de Atlântida. É uma felicidade sem fim e que, apesar de durar apenas cinco dias, distribui energia para todos. As leis são promulgadas em forma de acordes e passos de dança. Não importa a língua que se fale, você vai entender.Quem conseguiu voltar de lá disse que este reino, também chamado de Pernambuco, tem, indiscutivelmente, o maior e melhor carnaval do mundo.

Passaremos assim o domínio inquestionável do rei gordo: de chapéu de sol aberto pelas ruas. A multidão nos acompanha e nós vamos. Se vamos e voltamos, para onde, não sabemos. Só sei que carregamos alegria pra dar e vender. Evoé, Capiba! Quando o carnaval emergir serás rei novamente.


Responses

  1. adoroooooooo o carnaval pernambucano…

    hohoho


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