Publicado por: Eduardo Bezerra | Fevereiro 2, 2010

Não! Nós Não Temos Haiti!

Sebastião Salgado

Você é capaz de dizer que Haiti é esse? (Imagem de Sebastião Salgado)

Outro dia, conversando com uns amigos, fiz a afirmação que intitula este post. Eu, tão acostumado a polêmica, não imaginei uma reação tão intensa. Com mais ou menos força, uma parte concordava e outra discordava. Entretanto, o que mais me deixou surpreso (e feliz) foi o fato de nenhuma das opiniões ter ido por minha linha de pensamento. Poucas vezes eu presenciei um sortimento tão grande de imagens acerca de uma única frase.

Estávamos falando da cobertura da mídia acerca do terremoto haitiano, coisa interessante de acompanhar por uma perspectiva mais crítica. Eu, particularmente, identifico algumas fases nestas situações. A comoção coletiva se segue da exploração das vítimas, os analistas de situação, os questionadores de situação e o silêncio. Nos acontecimentos de Angra dos Reis, por exemplo,  a cobertura ostensiva (e perfeitamente compreensível) demora uns dois dias. Logo após, o sofrimento das famílias. Nesta fase, quanto mais lágrimas, desmaios, velórios, gritos, fotos, vídeos e perfis no orkut, melhor. Depois apareceram os engenheiros, políticos, moradores, curiosos e a Miriam Leitão, todo mundo dando um pitaco sobre o que deveria e não deveria ser feito.

Depois vem a melhor parte. Chegaram aqueles que não admitiam se falar tanto de Angra se em outros locais há tragédias muito piores, com pessoas igualmente carentes. Alguns crêem verdadeiramente que aquilo nem aconteceu de verdade, que o homem não pisou na Lua  e que Hugo Chávez tem razão em afirmar que o terremoto foi causado por Obama. Pelo menos, depois disso tudo vem o silêncio. Não se fala mais nada, não se toma nenhuma providência, o exemplo não serve de nada e, quando muito, só vai merecer uma ou outra nota de pé-de-página na liberação dos laudos do acidente.

Mas, por que não temos Haiti? Bem, sem querer Caetano deu a resposta: O Haitiiiiiii não é aquiiiiiiii! O Haiti é lá, com as pessoas vivendo problemas que são próprios de sua realidade. Esse é o primeiro ponto. A realidade não é uma foto, é um filme. Uma foto é uma cena congelada no tempo, extremamente dependente da interpretação de seu fotógrafo. Podemos encontrar muitas fotografias parecidas, até iguais, em partes diversas do mundo. Se você tiver a oportunidade de filmar uma situação da qual você tem a foto, compartilhará uma outra visão dos fatos.

Não há Haitis no Brasil. Nem em Gana. Nem na China. Nem na Inglaterra. Nossas misérias são de nossa propriedade e responsabilidade. Participei por dois anos de um projeto que me dava a oportunidade de conhecer as comunidades dos engenhos do Ipojuca. Alguns, para chegar, só em carros com tração nas quatro rodas. Casas de taipa, chão de terra batida, água de cacimba, crianças com lombriga e pessoas com leishmaniose conviviam com televisões de LCD, potentes aparelhos de som, antena parabólica, motos de 250 cilindradas. Estas pessoas não são menos pobres por terem estas coisas. Elas têm a sua miséria própria.

Quando eu ainda frequentava clássicos, morava em Campo Grande e meu Sport ia jogar no Arruda, vi, pela primeira vez, uma televisão com mais de 20 polegadas de perto naquela favela próxima ao estádio. “Tudo roubado”, alguns podem dizer. Não importa! O ladrão revende o produto, não dá de presente a ninguém. A vidas deles seria melhor se, ao invés do DVD, eles comprassem comida e arrumassem a casa? Não sei. Qual a prioridade de cada pessoa para sua própria felicidade?

E nós ainda temos um número grande de pessoas que se alimenta de palma, calango e lixo. E essa é a miséria brasileira. Aquela cuja responsabilidade é toda nossa em resolver. Por outro lado, vivemos nesta bola que flutua no espaço e criamos estas fronteiras por sermos incapazes de vivermos em paz coletivamente, aceitando as diferenças. Mas não podemos esquecer que ajudamos o próximo por dois simples motivos: ou já fomos ajudados ou precisaremos de auxílio um dia. Em nosso caso, já vivenciamos o primeiro. A seca de nosso sertão foi ajudada muitas vezes por pessoas dos lugares mais distantes do planeta. Recebemos comida, água, roupas, dinheiro, medicamentos e muito mais. Vez por outra sofremos com enchentes que levam tudo. Na mesma hora sempre tem muita gente disposta a ajudar.

Bem, os jornais precisam vender exemplares, a TV precisa de audiência para vender anúncios, as igrejas precisam de provações para justificar a fé incondicional. Cada um faz o que pode pra puxar a farinha pouca pra seu lado. Para isso, palavras de efeito, jargões e análises cheias de indignação são um passaporte infalível para chegar ao grande público. Aos poucos a gente vai repetindo termos, discursos e frases. Como diria Boris Casoy: “Isso é uma vergonha!”. Só é bom lembrar que ele falou isso do alto de sua empáfia, o mais baixo da escala de humanidade.


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