Publicado por: Eduardo Bezerra | Dezembro 18, 2009

A quem serve o COP 15?

Alguém se habilita a embalar esse Mateus?

Prometi a mim mesmo não ser muito ácido caso viesse a falar da COP 15. Para quem conseguiu não ver nada a respeito, este é um encontro que acontece na Dinamarca com o intuito de discutir o aquecimento global. Desde a ECO 92, no Rio de Janeiro, ninguém via um fuzuê tão grande acerca do meio ambiente. Mas está sendo bem engraçado de acompanhar e tenho um leve pressentimento que o encontro do Rio vai se repetir. A pergunta que martela minha cabeça, porém, é a que está no título: a quem serve o COP 15?

Tem muita gente interessada no evento. Acompanhando os blogs políticos tenho visto que é uma ótima oportunidade de turismo para políticos incapazes de mudar qualquer coisa no encontro. A contribuição deles lá na Dinamarca é a mesma que estou dando de minha casa acompanhando pela internet. Espero, de verdade, que eles me tragam um chocolatezinho daquelas bandas. Segundo dizem, coisa melhor não há.

O que tem de deputado passeando, mandando foto pra aparecer ao lado dos cartazes da COP e preparando material para o período eleitoral vindouro não está no gibi. Já houve até encontro cinematográfico: o vampiro Serra sorrindo para o Exterminador do Futuro. Schwarzenegger pelo menos vem de um estado americano conhecido por iniciativas “ecologicamente corretas”. O Serra? Acho que foi mostrar a experiência do Tietê, das indústrias de fogos, preservação das praias paulistas e os dilúvios da cidade de São Paulo.

Os únicos desta patota não deslocados no evento são os chefes de estado e os diplomatas. A COP 15 foi feita para eles, não para nós. Aí vem a segunda turma. O que esta quantidade de manifestantes está fazendo lá? Sabem que não vão participar no evento e não vão tensionar em nada os resultados das discussões. Já sei. Foram buscar o troféu universal da “militontância”: cadeia e porrada da polícia. Muitos vão chegar exibindo o roxo da borrachada e a foto deles sendo detidos.

Por outro lado, os grandes entusiastas deste encontro estão na mídia. Não, esta não é uma fala panfletária. É apenas uma constatação. O desfile de lideranças mundiais em nível governamental e não-governamental, em uma época de carência de informações frescas e de impacto, fazem da mídia os maiores desejosos de encontros deste tipo. Em época de internet, todo impacto da notícia vai embora ao ser abordado de forma superficial, mesmo em casos mais sérios. Você abre a página de um portal e vê: “Acidente de avião mata 150 pessoas no Senegal”. Quando busca o restante da notícia, observa: “em breve, mais informações”. Todo tesão da notícia se vai. “Quem dera uma COP-15 por mês?” Devem pensar eles.

Mas, espera aí, Eduardo! Quer dizer que este é o tipo de encontro totalmente inútil? Definitivamente não. Ver chefes de Estado tentando se livrar do constrangimento de não chegar a nenhum acordo na realidade me desperta uma sensação de potência social fora do comum. Potência social? Justamente. Tomemos como exemplo os países europeus. Nenhum encontro de líderes foi suficiente para garantir o consumo de alimentos saudáveis e com cada vez menos agrotóxicos naquele continente. Quem conseguiu isso foram seus cidadãos. Eles que deixaram, a princípio, de consumir alimentos com uso deste tipo de química e depois pressionaram seus governos a melhorarem os preços para que todos os adquirissem.

Foi a preferência dos consumidores, ao passarem a dar preferência a carros flex, que pressionaram as fábricas a só tirarem das linhas de montagem carros nesta configuração. É o peso crescente das questões ambientais que determinam cada vez mais alguns cargos no nosso legislativo. E aos poucos vamos discutindo com mais frequência a saúde ambiental, o reflorestamento e proteção das florestas, preservação de matas ciliares, redução da emissão de gases tóxicos, busca de fontes de energia alternativa. Até os motéis ganham clientes ávidos por uma furunfadinha em uma piscina aquecida por painel solar. Uma delícia.

A COP 15 não vai trazer grandes avanços por si só. Inclusive porque se detém na questão do aquecimento global. Precisamos discutir o ambiente como um todo ou corremos o risco de crescermos atrofiados. Os acordos internacionais de nada servem frente à pressão lobista da economia. Redigir determinações com força de lei? A lei é de interpretação relativa e quem as faz, sabe como deixar as brechas. Somos nós os cidadão que faremos esta diferença.

Aplaudo calorosamente a iniciativa da criação de um fundo global para enfrentar estes problemas. Ao mesmo tempo rio e choro, copiosa e desesperadamente, ao ver as metas que estão tentando estabelecer neste encontro de madames. Metas climáticas são de longo prazo. A priori nenhum destes governantes tem a mínima responsabilidade com elas. O risco mais sério para mim é o de se criar uma nova falácia como foi o “Saúde Para Todos no Ano 2000”. Bem, a saúde do ano 2000 a gente viu como ficou.

Saibam apenas de uma coisa: um evento onde se discute o destino de mais de 6,4 bilhões de pessoas e apenas os governantes, sem a participação efetiva da população nos fóruns mais importantes, não pode resultar em nenhum resultado verdadeiramente palpável.

Depois disso eu vou embora.

Tenho que limpar os 132 e-mails de minha caixa pedindo meu nome em abaixo-assinados. Torço pelo dia que combateremos também a poluição virtual. Às vezes incomoda mais que o calor.


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