Publicado por: Eduardo Bezerra | Dezembro 2, 2009

Quando eu quis ser Xangai

Quano eu era moço um dia / arrisulví saí andano / pula estrada da aligria (Cantador do Nordeste)

“Marido se alevanta / e vai armá um mundé / pra pegar uma paca gorda / pra nóis fazê um sarapaté”. Escutei estes versos pela primeira vez entre os anos de 1986 e 1987 na casa de meu querido e finado tio Lula. A casa dele era o meu paraíso particular. Um mundaréu de livros e discos onde passava longos períodos viajando em frases e acordes. Minha infância sempre foi cercada de cultura e meus pais sempre tiveram o cuidado de garantir a mim e minha irmã uma boa educação e o contato com conteúdos de qualidade. Como sempre gostei muito de ler, até bula de remédio me chamava a atenção. Lembro até hoje de meu pai arretado porque eu lia até pichação no muro do Clube do Bandepe quando esperávamos ônibus.

Mas naquele momento estava nas mãos com o vinil do Cantoria 1. Meu tio tinha uma coleção de 2 ou 3.000 vinis, não lembro bem. No meio deles, Caetano, Chico, Gil, Caju e Castanha, Jean Michel Jarre, John Lennon e o Cantoria 1 e 2. Aos 8 anos de idade eu adorava Geraldo Azevedo e, naquele dia, foi o nome dele que me chamou atenção na capa do bolachão. A tarefa mais esperada das minhas férias era ir para Taquaritinga e colocar todos aqueles discos em ordem alfabética, ouvir os meus preferidos, descobrir coisas novas. Ficava admirando as capas. Nunca esqueço o vinil do Gonzaguinha com a foto granulada  do barbudo com os ombros nus. Só vim escutar as músicas daquela obra quase 10 anos depois.

Só precisei dos primeiros versos pra deixar Geraldo pra lá (mas só por enquanto). De quem era aquela voz escrachada, forte, hora aguda, hora grave? “Sinhores dono da casa / o cantadô pede licença”. Foi uma pedrada no peito, foi como descobrir um universo novo. Não conhecia música daquele jeito e não entendia o motivo. Era coisa do dia-a-dia da gente, com som de pisada de terra e cascalho, cheiro de caju maduro, canto de passarinho e banho de açude. Com esse disco eu aprendi a fechar os olhos para sentir o ritmo, compreender a letra, imaginar-me nas histórias e fazer minhas turnês imaginárias.

Eugênio Avelino me despertou este mundo e eu saí da mesmice dos medalhões da MPB. Passei a escutar de tudo e decidir o que gostava. Não permiti mais nenhum crítico imbecil dizer o que era bom ou não. E toda vez que fazia minhas viagens mentais, queria ser Xangai. Há cinco obras que me emocionam profundamente e em três Avelino está. Os dois Cantorias e o belíssimo show com Renato Teixeira. Completando a lista o Ao Vivo de Geraldo Azevedo, companheiro de minhas paixonites de adolescente, e a trilha sonora do Cinema Paradiso, com Ennio Morricone.

E só o ano passado tive a oportunidade de vê-lo ali em minha frente. Em uma Cantoria maravilhosa com Renato Teixeira e Maciel Melo. Para completar ainda conheci um grupo que está me forçando a aumentar minha lista de obras de cinco para seis: o Fim de Feira com sua Revolução dos Pebas. Naquele encontro  musicado de amigos voltei à minha infância, assisti o filme de minha madurescência, ri e chorei. Lembrei de meu tio, dos amigos do interior, das paqueras na praça da cidade. Recordei-me de escutá-lo no dia o qual conheci minha esposa.

O Cantoria 1 foi o segundo dos quase 800 CDs que possuo hoje. Quando meu pai comprou nosso primeiro CD Player eu estava em Pesqueira na casa de minha avó. Corri para a Briboca, a única loja com seção de músicas na cidade à época. Procurei o Cantoria e não achei. Como tinha que comprar algo para gozar da novidade, achei um de sucessos do Oswaldo Montenegro. Quando tive dinheiro de novo (o que demorou um bocadinho) fui procurar a sonhada bolachinha prateada.

Até hoje empresto até as calças, menos os meus CDs de Xangai. Bem, minto, uma vez emprestei o dele com Renato Teixeira a um amigo. Mas aí era covardia, o cara é meu irmão, meu melhor amigo. E o carequinha é o único que devolve as coisas que eu empresto a ele.

Enfim, esta não é uma crítica musical. Hoje acordei com saudades e percebi que quem cantava na trilha sonora dela era Xangai. “Apôi, pro cantadô e violêro / só hai três coisa neste mundo vão / amor, furria, viola, nunca dinheiro / viola, furria, amor, dinheiro não”.


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