Publicado por: Eduardo Bezerra | Novembro 22, 2009

A Violência (ou, como voltar a refletir sobre a realidade?)

Chega muito perto pra ver no que dá (foto roubada do Google)

Não sou uma pessoa muito dada a conceitos e lugares comuns. Desconfio de tudo aquilo proferido com radicalidade. Prefiro os três pontos ao ponto final para encerrar minhas frases. Sou um acadêmico atípico por preferir as ruas aos livros, as pessoas aos filósofos, os acontecimentos às projeções teóricas. Há teorias interessantes, há fatos incontestáveis (apesar de relativos). Uso os conceitos pela necessidade de cumprir o método científico. Uso o dia-a-a-dia por não ter opções mais interessantes a ela.

Desde minha entrada na universidade, nada me deixou tão intrigado quanto os estudos no campo da violência. Temática complexa, ao mesmo tempo se mostra cheia de paixões e parcialidades. Diferente das ciências exatas onde opi, desde o seu anúncio, sempre valeu 3,14159265, os fenômenos sociais se modificam em função do momento. Neste aspecto, uma coisa sempre surpreendente é a questão histórica.

Quando estou em sala de aula sempre digo aos alunos que a História não pode ser julgada, por mais controverso que seja o acontecimento. Primeiro, o relato histórico é feito de forma parcial por um representante do lado vitorioso. Mas História é sempre guerra? Não, mas sempre há uma visão prevalecendo sobre outra (ou outras) visões diferentes do mesmo fato.

A II Guerra Mundial sempre é lembrada pelo horror nazista e os campos de concentração. Estes, por sua vez, em seis anos vitimaram estimados seis milhões de judeus. Sem dúvidas, um crime contra a humanidade. Entretanto, em dois dias (na realidade, em segundos), duas bombas atômicas jogadas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, vitimaram 200.000 pessoas. Não haviam soldados, não havia resistência, não haviam bases militares nem governantes importantes a decidir o futuro da guerra. O que foi mais cruel? Depende. Os “aliados” venceram a guerra, portanto, toda maldade é germânica. Caso a Alemanha tivesse prevalecido, os norteamericanos certamente receberiam o título de genocidas (bem, eles já o receberam assim mesmo). Ah, e hoje o Estado de Israel repete os campos de concentração com os Palestinos. Abalizados pela história (com “h” minúsculo mesmo).

Se vocês tiverem a oportunidade de participar de uma apresentação acadêmica sobre o tema, é quase certo que ouvirá alguém dizer que a violência nunca foi tão grande quanto nos dias de hoje. Engano. Nunca se morreu tão pouco pela violência. Voltemos às guerras. Sim, guerras são atos de violência e não uma forma de fazer política como os chefes de Estado costumam definir.

De acordo com um relatório da ONU (coletada no belíssimo Weblog do Daniel – http://dgraca.wordpress.com/), só no século XX, quase 110 milhões de pessoas perderam suas vidas em conflitos. Este valor representou cerca de 4,35% da população mundial. Mais de meio Brasil. Voltando aos dias atuais, vemos a violência contra a mulher aumentando gradativamente. Geralmente uma violência doméstica causada por homens (apesar das questões ideológicas impedirem uma reflexão sobre o crescimento do número de mulheres no mundo do crime). No entanto, sugira a uma instituição feminista ou grupo de mulheres realizar ações com homens (sejam agressores ou não)… Bem, as mulheres continuam morrendo.

Então, o que justifica todo este pandemônio acerca do assunto? A proximidade. A violência de antigamente era mais comumente por alguém desconhecido. O contexto de mundo era bem menos competitivo e as pessoas mantinham distãncia segura uma das outras. Mas, e o ser humano é um bicho para ter distância segura? Sim, um animal como qualquer outro, dotado de noção de propriedade, proteção, formação de família, tudo o mais. Quem já viu dessas reportagens especiais sobre vida selvagem certamente se identifica com muitas das reações dos demais animais.

Por isso que o crescimento da violência interpessoal é proporcional ao processo de urbanização, sobretudo àquela desordenada. Não é difícil perceber o grau de confinamento no qual o ser humano vive nas cidades. O território ocupado sem ordenamento ou presença do Estado, residências cada vez menores e com cômodos mais apertados, carência na política pública de transportes e redução dos espaços de lazer, são alguns dos fatores que nos agregam ao mesmo tempo em que nos isolam.

Ao mesmo tempo, a mais nova entre nós acadêmicos é discutir se existe ou não uma violência urbana. O argumento “fatal” diz respeito ao fato de não haver uma forma de ferir ou matar em especial na cidade ou no campo. Bem, morrer sempre foi morrer em todos os sentidos. A diferença está na tecnologia que permite a ação. Esta evoluiu substancialmente. Por isso acredito que existe um tipo de violência urbana sim, contrariando a lenda viva Maria Cecília Minayo. Não pela forma, mas pelo contexto no qual ela acontece.

A motivação pela qual as pessoas matam, ferem ou se maltratam em espaços urbanos têm motivação distinta do que acontece no campo. É uma violência com cara, lugar, sexo , cor, faixa etária e ocupação bem definidas. Apesar da complexidade do fenômeno, o mesmo acontece num modus operandi familiar. Além do mais, há um fenômeno que se mostra ainda maior que a morte e a lesão: a sensação desta violência. Não é preciso você ser vítima de nenhum ato agressivo, basta que você saiba que aconteceu a um conhecido ou nas proximidades de sua casa ou residência. O pânico se replica facilmente, como num rastro de pólvora.

É óbvio que há mais buracos que conclusões neste espaço de discussão. E uma carga ainda maior de vaidade e disputa de espaço. Observar pela relação de gênero, de poder, raça, classe social e outros. Só esquecemos que a sociedade é composta disso tudo junto, além de uma boa dose de responsabilidade mútua. É difícil perceber isso quando o violento é o outro, o preconceituoso é o outro, o ladrão é o outro. E nós? Cordeirinhos.

É, mas enquanto discutimos se há violência ou não, se ela é maior hoje ou ontem, o pessoal está por aí matando por ciúme, loucura, maldade, ganância ou encostada no parachoques. E nós, mais uma vez, somo obrigados a ficar presos em casa, deixando passar a oportunidade de se viver em um mundo com oportunidades, conhecimento e tecnologia nunca antes vistas em nossa história.

Bem, e assim vou terminando minhas idéias com os habituais…


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