Publicado por: Eduardo Bezerra | Novembro 5, 2009

O IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (ou, e agora, quem poderá nos defender?)

Luz no fim do túnel?

Ainda há chance?

Para mim é difícil dizer (ou escrever, como queiram) o que pensar do que vi e ouvi no IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva. Realizado entre os dias 31 de outubro e 04 de novembro, no Centro de Convenções de Pernambuco, pudemos observar um evento no mínimo contraditório, paradoxal. Muito sinceramente gostaria de dizer que a luz no fim do túnel ficou um pouco mais forte. Por mais que me esforce não tenho argumentos para tanto.

Não afirmo porém que o mesmo foi decepcionante. A decepção é uma qualidade diretamente ligada à expectativa e, como a minha era baixa, não houve grandes prejuízos. Creio até que os fatos falam por si só.

No espaço do congresso, cerca de 7.000 pessoas circulavam em salas, stands, auditórios, livrarias, lanchonetes e tendas. Numa época onde o interesse pela qualificação reduz gradativamente, este número é espantoso. Para se ter idéia, esta população de inscritos, trabalhadores e convidados foi maior que as de cerca de 2.000 cidades do Brasil.

Os primeiros  momentos do Congresso podem ser considerados ao menos como “engraçados”. Imaginem um Congresso de Saúde C0letiva invadido por mosquitos. Não eram alguns, eram muitos. Cenas inusitadas puderam ser vistas como pessoas se besuntando de repelente e, em meio ao calor nordestino, camisas de mangas compridas. O pior? A infeliz idéia da Secretaria de Saúde do Estado de distribuir o folhetinh “Seja um Mosqueteiro”. Quando eu vi as pessoas que trabalhavam no local com raquetes elétricas pensei se não seria melhor o slogan “Seja um Tenista!” junto com uma foto do Guga.

Entretanto, antes de falar dos problemas e contradições, vamos ao que foi bom. Além da oportunidade de encontrar amigos cuja profissão leva a uma certa diáspora, a possibilidade de ouvir deles uma gama infindável de outras experiências e realidades faz dos corredores e lanchonetes um espaço de eferverscência inigualável. Grandes debates não foram presenciados de cadeiras acolchoadas. Algumas comunicações coordenadas aconteceram encostadas em pilastras, entrelaçadas por uma ou outra boa gargalhada. Para mim o verdadeiro espírito do encontro. Além disso, a presença das editoras proporciona o acesso à literatura geralmente distante geograficamente da grande maioria das pessoas ali presentes. Uma festa para os olhos, uma tragédia para o bolso. Mas calma, o 13º vem aí (para aqueles que o recebem, é claro).

Seria hipocrisia minha dizer que o ponto alto do evento não foi a presença do presidente Lula (apesar de minha opinião pessoal ter apontado para a Orquestra Criança Cidadã). O “cara”, mesmo sem intenção, nos deixa valiosas lições. A maior de todas elas é que o que nos separa do povão pobre e analfabeto é a conta bancária e a marca do perfume. O resto é tudo igual.  O presidente nos mostra que somos todos massa, somos todos urbe, e que não há bobagem tão grande que não possa ser demolida por uma boa oratória. O governador Dudu também tem seus méritos e reza na mesma cartilha. Comunicadores natos. O que não dá para entender num público esclarecido como aquele é o seguinte: como o Empresár… Secretário de Saúde de Pernambuco e o Ministro da Saúde são vaiados e os seus chefes não?Absolutamente tudo o que eles fazem necessita de autorização de seus superiores. Como eu disse, somos todos iguais, inclusive na possibilidade de ser massa.

Em relação a isso lembrei de uma das apresentações de posters que coordenei no evento. Em um determinado trabalho o apresentador fez o comentário que sai da boca de muitos professores do campo da saúde (infelizmente), o de que os estudantes treinam no corpo do pobre para trabalhar no corpo do rico. Essas mesmas elites esquecem que os acidentes graves são quase todos recolhidos para o setor público. Caso alguém dessa elite necessite de um transplante, é no SUS que ele vai conseguir atenção. O corpo do pobre e do rico têm as mesmas estruturas.

Outro ponto interessante foi a palestra de Paim. Tenho a impressão que hoje ele representa um Sílvio Santos da saúde pública. Dotado de uma oratória maravilhosa e um conjunto de falas invejável, consegue dizer tudo aquilo que os sanitaristas adoram ouvir. Inserir palavras como sociedade, pobreza, exclusão, defesa do SUS e a infame “radicalização da democracia”, parece ser a placa de aplausos da atualidade na saúde coletiva. Na minha opinião (que fique bem claro que é a minha) a fala de Jairnilson é o mais-do-mesmo. Curiosidade foi observar que as palmas que ele desferia a cada fala do coordenador de sua mesa cessaram no momento no qual o mesmo desancou a privatização travestida do setor saúde. Será que a palma da mão de Jairnilson estava doendo? Eu sei que não…

O futuro da saúde pública não é nada bom e com a atual cabeça dos gestores, gerentes, trabalhadores, pesquisadores, acadêmicos, professores e do movimento social, isso não é novidade. Notícia triste é saber que a Fiocruz está indo para o mesmo buraco, prestes a ser “privatizada” numa manobra semelhante a que o governador Duduzinho fez aqui em Pernambuco. Pouco tempo de debate, nenhuma participação da sociedade, prazos reduzidos para a decisão, enfim, a velha tática.

E, no vai e vem dos fatos, a certeza que o fosso entre o discurso e a prática vai ficando cada vez mais distante. Uma certa tristeza de que o contexto atual da saúde pública não é culpa dos políticos. Estes fazem exatamente aquilo que se espera deles: o lobby, a negociata, a enganação, o eterno não dá. A culpa de tudo isso é  nossa enquanto sanitaristas, militantes, cidadãos. O ente político não nos teme mais, uma vez que passamos todo nosso tempo teorizando, sanitarizando a realidade e nos preocupando com nossos financiamentos cada vez mais parcos.

E o SUS? Bem, o SUS tenta seguir sem nossa presença efetiva.


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