Publicado por: Eduardo Bezerra | Março 7, 2009

Quando Jesus tirou as mãos da cruz

Ouço gritos…

Aos poucos a luz deixa de ofuscar meus olhos e vejo um movimento lá fora. Ponho a cabeça meio de lado e reconheço aquelas pessoas. Sei quem é cada uma delas. Bem, pensam que eu não saio só porque me pregaram nesta cruz. Meu corpo de pedra, gesso, acrílico, barro, o que seja, fica na parede. Mas meu espírito passeia.

Ouço um choro também. Quem são estas? Quem é esta criança que chora aqui? Parece ser só uma, mas no corpo franzino choram milhares, milhões de outras meninas. Violentadas, espancadas, roubadas no sonho, estupradas, assaltadas na alma. Ela chora só, mas seu soluço é repleto de ecos que não têm fim.

E essa mulher assustada. Quem é? Segura a mão da filha, solidária na dor, apesar de sua própria escara. É a mãe. Sei quem é ela assim como sei quem são todos. Ela é como tantas mães que, acima de tudo, são mulheres. Com desejos desconsiderados, vaidades injuriadas, tesões reclusos, cidadania negada. Assim como a filha, é uma mulher cheia de muitas. Quase nunca unidas no amor e na justiça. Quase sempre unidas na dor e na violência.

Quantas pessoas ao redor delas… A igreja está cheia. Nem todos católicos, nem todos cristãos. Todos fiéis da religião universal, aquela que une a todos e todas: o amor. Uma religião que não tem templo fora de nosso corpo, não precisa de sacerdote, não tem batismo. Nada. E tudo. Seu dízimo é a solidariedade.

Mas há gritos e eu ouvi. Não o reconheço. Fala em meu nome? Não posso me mexer. Meus braços estão presos, minhas mãos estão presas. Será que é por isso que me prenderam aqui? Aqueles que gritam se vestem com riqueza. O cajado na mão não é de madeira como o dos pastores. É dourado. Imponente. Usam cruzes e me vejo nelas.

São raivosos. Já vi isso antes. O sangue que jorrou de seu ódio contra os diferentes ainda suja minhas poucas roupas. Já não sei mais qual é o meu sangue ou o sangue do outro. Mortos na fogueira. Mortos em praça pública. Enxotados pela sua crença. Sangue de mulheres-bruxas. Sangue de mulheres. Sangue de homens. Sangue de seres humanos. Mortos pela omissão, ignorância, ganância ou pura maldade.

Que palavras são essas proferidas com tanta autoridade? Excomunhão? Pai, morri para isso? Quem disse que ele tem autoridade para falar em meu nome e expulsar um irmão de minha casa? O aborto é mais grave que o estupro ou o assassinato. Quem disse? Quem estabeleceu os valores? Ah! Os Concílios e Códigos Canônicos. A bolsa de valores do pecado. Esquecem que a violência do corpo mata em vida. Há valor para isso?

Sinto os pregos caírem de meus pulsos. Quero abraçar estas pessoas que sofrem, acariciar suas cabeças e apoiá-las em meu ombro. Tento estender os braços. Não consigo. Sinto vergonha por estes “distintos” homens do Senhor. Quem é esse Senhor? Eu é que não sou. Eu é que não sou…

Os raivosos me ignoram e eu continuo a viver no povo. Meu corpo é preso ao ícone. Minha alma vive nas pessoas. Seu corpo é minha igreja. E assim percorro o mundo de diversas formas. Sou Cristo, Tupã, Krishna, natureza, Gaia, Ogum. Sou todos e todas.

Meus braços voltam à cruz. Os pregos ao meu pulso. Meu corpo ao barro. O barro à parede.

Estou em você. E por isso hoje eu choro.

Obs.: Há muitos anos me excomunguei e optei pelo Deus vivo, sem religião ou interesses escusos. Há muitos anos eu vivo um Deus que é apenas amor e compaixão.

Obs 2: Valeu, Tomaz! Correções feitas!


Responses

  1. Ótimo texto Eduardo.
    Abraços.

  2. Arretado!!!
    Domicio


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