Publicado por: Eduardo Bezerra | Janeiro 20, 2009

O mundo em que vivo

O mundo em que vivo é louco, mas previsível.

O mundo em que vivo me assusta pela capacidade de me colocar diante de meu próprio ridículo, minha própria crueldade.

No mundo em que vivo, sua nação mais racista elege um negro para recuperar as poupanças e hipotecas que o  branco levou para a guerra. Neste local, todos enchem os olhos de lágrimas, exaltam a igualdade entre os povos, a capacidade de superar adversidades. Tudo em nome do deus-moeda. E escrito em sua moeda: “Deus abençoe!”

Neste lugar, o homem que mais poderia se beneficiar da cor de sua pele foi o mais sensato de todos e passou ao largo da hipocrisia. Assim, pela primeira vez, aquele que manipula se cala, para que os manipulados masturbem suas próprias mentes com esperanças de sua própria autoria (ou mesmo fantasia).

No mundo em que vivo, Deus é o comandante da guerra ao invés do interlocutor da paz. De um lado da cerca ostenta uma estrela de seis pontas, do outro um trançado em branco e preto. Entre eles um grupo de pessoas exatamente iguais, alimentando-se da mesma comida, bebendo da mesma bebida, respirando do mesmo ar, com sangue igualmente vermelho. Neste lugar, ainda que sejam todos humanos, do outro lado do muro seus olhos só enxergam demônios.

No mundo em que vivo o pirão é pouco e o meu vem primeiro. Neste pedaço, perpetua-se o “veja bem”, como no comercial da TV.  A ética é para a novela, onde o capítulo termina com nossa alma lavada e autorizada a esculachar nosso próximo na manhã seguinte. À noite tem outro capítulo e então castigaremos a Flora, nos sentindo na pele da injustiçada Donatela.

No mundo em que vivo, o planeta é virtual, a namorada é virtual, o sexo é virtual e o golpe causa dano real. Neste torrão esférico de água e terra, o vírus mais mortal deixou de ser o da AIDS ou o do ebola. Aqui, o vírus de computador mobiliza mais recursos e esforços.

No mundo em que vivo, os cidadãos trocaram a luta pela justiça pela luta por compensação. Aqui, neste quinhão, você pode poluir desde que plante um número “x” de árvores. Você pode destruir, desde que doe um tanto assim para a caridade. Você pode segregar, desde que isso represente o resgate pela injustiça secular dos escravizados e torturados.

No mundo em que vivo eu sou um número. Um CPF, uma carteira de reservista, um RG, um login, uma senha. No mundo em que vivo, minha conta bancária diz mais de mim que as pessoas que abraço, os rostos que beijo, as mãos que aperto. O SPC diz que sou perigoso, criminoso, inimigo, mesmo que ninguém escute a opinião de minha mãe ou meu pai ou minha esposa ou meus amigos, tudo isso a meu respeito.

No mundo em que vivo dizem que o amor mata. Por mais que tenhamos evoluído, proclamando a Declaração Universal dos Direitos (que são) do Homem (da mulher não!), as pessoas ainda são propriedades uma das outras de forma que você pode fazer com elas o que desejar. Estupra, bate, xinga, prende, tortura e, ainda assim, essa pessoa é sua por intermédio de correntes invisíveis, daquelas que só você é capaz de enxergar.

No mundo em que vivo ser criminoso compensa, ser vítima não. Aquele que rouba tem benefício, fim de semana em  casa, liberdade provisória, indulto de natal. E eu só queria um habeas corpus, daqueles que me protejam desses fazedores de mal armados com revólver ou caneta. Mais de trezentos anos depois do Padre Antônio Vieira, aquele que rouba uma galinha continua sendo um ladrão e o que rouba um império ainda é imperador.

No mundo em que vivo nada disso é novidade e, infelizmente, às vezes vai ficando mais irônico ainda. Neste torrão, coerência é moeda preciosa e solidariedade verdadeira artigo de luxo (ou de lixo, quem sabe?). Há uma dificuldade tão grande em olhar além de mim?

Perdoem-me caso discordem, cada cabeça é um mundo e este mundo é o meu. Oxalá seus mundos se mostrem mais harmoniosos, menos desiguais e muito mais fraternais. E assim eu vou tentando mudar as coisas a partir do meu planeta. Neste caminho, quem sabe meu mundo não encontra o seu e gente muda outros mundos juntos?


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