Publicado por: Eduardo Bezerra | Dezembro 29, 2008

Retrato de Um Forró: Relatos da Violência na Música Nordestina

gonzagaodesenhoDeixem só eu explicar uma coisa. Este não é um texto onde a música é vista como a grande responsável por influenciar as pessoas em suas atitudes e valores. Considero aqui uma energia complementar e recíproca entre aquilo que influencia a música e o que a mesma influencia nas pessoas. O sertão nordestino tem em suas expressões artísticas uma forma de contar a sua história e compartilhar o que lhes é caro. E tem sido assim no forró, cordel, xilogravura, entre outros. Podemos e contamos a nossa história por intermédio de nossa arte. É a forma encontrada por nós para perpetuar aquilo que somos.

Por motivos óbvios (e de gosto pessoal) só há exemplos direcionados ao forró tradicional, o nosso pé-de-serra. Talvez um dia, caso eu tenha paciência para escutar o que atualmente chamam de forró estilizado, escreva alguma coisa sobre. Por enquanto é só, e me descupem o preconceito e falta de desprendimento.

O forró apresenta duas linhas maiores no relato da violência. A primeira é estrutural e manifestada, pelo que diz Milton Santos, na violência geradora de todas as demais violências. É  a injúria da exclusão social, da desigualdade, a seca não assistida. A segunda é relacionada às relações interpessoais, seja na lida com o restante da sociedade ou à violência do ciúme, contra a mulher, enfim, dos relacionamentos pessoais como um todo.

A idéia de fazer esse estudo está sendo desenvolvida por mim e por José Odael (o homem mais perigoso de Flores) e surgiu de uma forma por demais despretensiosa. Estava eu num dos muitos engarrafamentos de Recife, quando optei por escutar algo que alegrasse a alma. Escolhi o Samba de Latada, de Josildo Sá e Paulo Moura. Apesar da curta distância a percorrer, o tempo foi suficiente para ouvir todo o CD com atenção suficiente para observar que, das dez músicas cantadas (outras três são instrumentais), quatro fazem relatos diretos, apesar de naturalizados, da violência.

Forró de Mané Vito (Luiz Gonzaga / Zé Dantas), Prá Virar Lobisomem (Cecéu), Cumpade Zé de Bina (Apolônio da Quixabinha) e Fraguei (Dilson Dória/Oswaldo Oliveira), relatam como a violência faz parte da rotina do nordestino. Esta pode ser naturalizada como jeito de ser do próprio povo que vê na “valentia” um qualificativo para si mesmo (“Seu delegado / Diga a vossa senhoria / eu sou fio de uma família / que não gosta de fuá / Mas tresontonte no forró de Mané Vito / tive de fazer bonito / a razão vou lhe explicar…). A reação à ameaça no campo sentimental também se dá de forma explícita na forma como se lida com o ciúme (Se um cabra safado for dançar com meu bem / eu vou ficar zangado e não respeito ninguém / Aí o pau come, aí o pau come / eu deixo de ser homem pra virar lobisomem). Neste último caso, enquanto algo ainda mais importante, o reconhecimento de que, enquanto ação humana, a violência é condenável. É preciso virar lobisomem para distribuir a porrada no cabra.

A partir daí segui aprofundando os estudos nesta área e perceber que mexi numa casa de maribondo. Quanto mais eu pesquisava, mais a coisa ia ficando complexa. Encontrei, inclusive, uma figura desconhecida por mim (e por muita gente), dono de uma crônica interessantíssima. Ary Lobo é um paraense de Belém que fez um forró da melhor qualidade. Entre muitas de suas músicas aparece Cosme e Damião (Vocês tão vendo / aqueles dois moços fardados / que estão de braço arriado / com as mãos cruzadas pra trás / todo ladrão, assassino e desordeiro / vigarista e trapaceiro / eles dois não deixa em paz / não banque o forte porque eles lhe derrete / na base do cacetete, da tapa e do pescoção / e se você tentar mostrar escola / eles sacam da pistola e piora a situação). Em outro momento, o tema de Ary Lobo foi o comportamento do povo da capital pernambucana, em Recife Sangrento, a toada era a seguinte: cada rua em Recife tinha um brabo / cada bairro existia um valentão / a coragem era além da razão / testemunho de tal civilidade / a peixeira era a identidade / documento de todo cidadão / a verdade é sagrada e não se esconde.

O mestre Luiz Gonzaga, enquanto compositor ou intérprete (muitas das vezes nos dois campos) foi o grande cronista do sofrimento sertanejo. Canções como Asa Branca e a Volta da Asa Branca, Súplica Cearense, entre outras, são fontes inesgotáveis de informação para compreender o que significa ser arrancado de sua terra por não ter condições de gerar o seu próprio sustento no local onde se nasce. E não é algo de requerer a ajuda em forma da esmola, como se divulga muitas vezes pela grande mídia. Junto com Zé Dantas, compõe Vozes da Seca, onde coloca o real sentimento do nordestino violentado pela omissão dos “dotô do poder”:  “Mas dotô, uma esmola a um homem que é são / ou lhes mata de vergonha ou vicia o cidadão / é por isso que pedimo proteção a vosmicê / homi pur nós iscolhido para as rédea do poder / pois dotô, dos vinte estado temos oito sem chovê / veja bem, quase a metado do Brasil tá sem comê.”

Diferente do que pensam alguns intelectuais e cronistas musicais, este não é um ato de apologia à violência. É um relato e faz da música o noticiário de quem não tinha acesso à informação de massa. Assim, boa parte da poesia no nordeste brasileiro não é lírica, é política, focada na realidade. Tem um fundo social forte, uma reação à situação colocada pela omissão dos mais favorecidos em relação aos mais carentes. Podem soar muito duras algumas passagens deste cancioneiro, mas quem falou que a sua realidade é suave?

Hoje vive-se a época do politicamente correto e, muitas destas obras não teriam lugar hoje, em função de um esforço quase que inconsciente de construir uma equivocada cultura de paz. É como se a violência, o preconceito e a exclusão não acotecesse se simplesmente não falássemos dela. De que tipo de cultura de paz estamos falando quando, ao invés de viver, a população sobrevive? Mas outro dia falo sobre isso. Voltando ao nosso assunto, hoje falamos da nossa  realidade, mas sem realidade demais…

Este fenômeno não é exclusivo do nordeste. O samba tem uma trajetória, enquanto uma expressão da massa, semelhante ao nosso forró. Há o samba cujo principal personagem é o amor, mas a vertente da crítica social, do relato da realidade, é tão forte quanto o lirismo. É o caminho natural daqueles que não se fazem ouvir. Nesta impossbilidade canta-se, dança-se ou versa-se. E tem sido assim com diversos movimentos musicais, como o hip-hop (não confundir com o funk carioca) e o rock (cujo campo crítico tem ficado cada vez mais restrito), além do movimento Manguebit aqui mesmo em Pernambuco.

A escrita do material está em curso. Quem quiser (e puder) ajudar, ficarei bastante grato: meu e-mail é bezerraeduardo@uol.com.br.

Obs.: Por ironia do destino, a música que dá título à postagem não tem relato nenhum de violência. É uma composição de Luiz Gonzaga e Luiz Ramalho.


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