Publicado por: Eduardo Bezerra | Dezembro 15, 2008

Trânsito, morte e responsabilidade

acidente-bvNo último sábado (13.12.2008), às 05:50h da manhã, mais um acidente foi registrado na cidade do Recife. Mais precisamente no conhecido bairro de Boa Viagem. Até aí, nada demais. Uma pessoa morta e três feridas. Infelizmente e mais uma vez, nada demais. Nada demais? Retiremos este caso das frias estatísticas (as mesmas que comporão minha pesquisa) e convertamos a senhora Aurinete Gomes em uma cidadã, assassinada pelo condutor do outro veículo e pela negligência do poder público.

Quem estiver lendo este post deve estar se perguntando o que aconteceu. Bem, um grupo de amigos egressos de uma boate, completamente bêbados, pegam uma caminhonete de luxo e saem em alta velocidade pela Avenida Domingos Ferreira, riscando sinais vermelhos e ignorando toda e qualquer lei de trânsito. Em determinado momento o carro da senhora Aurinete e sua família cruza uma das transversais no sinal verde (para ela, obviamente). Resultado: a condutora morta e os demais passageiros feridos.

Não quero me ater no homicídio cometido pelo condutor da caminhonete (o qual em breve deverá estar nas ruas de novo, com um novo carro, provocando novos acidentes), apesar do polcial que o recolheu ter afirmado que o mesmo chegou à delegacia rindo junto aos amigos. A negligência do poder público foi o que me marcou neste caso.

Obviamente o agente público não vai servir de babá para o cidadão ficando com o mesmo vinte e quatro horas de seu dia esclarecendo sobre suas responsabilidades. Mas a lei tem outras funções além de sua aplicação para quem a inflige. A função fiscalizatória é uma delas, recolhe a pessoa IRresponsábel antes da mesma cometer alguma infração ou crime. Por questões óbvias, este elemento é aplicado aleatoriamente.

Outra função é mais ampla e incide sobre a consciência coletiva. A imprevisibilidade de ser pego e responsabilidado por uma infração ou crime, impede que muitos deles o cometam. Isto independente dos olhos do agente público. Mas para esta consciência coletiva seja sensibilizada é necessário o funcionamento eficiente das funções já citadas mais a certeza da punição. E o que tem acontecido com a lei seca?

Decretada em 19 de junho de 2008, a lei 11.705 inicialmente causou medo nos habitués dos passeios motorizados sob efeito de álcool. A princípio muitos aderiram imediatamente e começaram a rever suas práticas, adotando água, suco e refrigerantes, às saídas que geralmente eram conduzidas pelos “amigos da vez”. A fiscalização funcionava, apesar de mal equipada e de, constantemente, pessoas (de posses, vale citar) sendo pegas e soltas (mesmo com a lei recomendando a prisão). Ainda assim, ninguém queria arriscar em desembolsar mais de 900 reais por conta de uma farra mais barata.

Quantas vidas não foram salvas enquanto a fiscalização estava na rua? Por que não evitar estas mortes e lesões ao invés de recolher as vítimas? A verdade é que a lei seca está bêbada, cambaleante. Enquanto isso, vários Alissons Jerrars estão às ruas vitimando Aurinetes aos montes. O planejamento urbano deveria incluir as pessoas em escalas bem maiores as quais elas relatam incluir. A 11.705 conseguiu o mais difícil, evitar que uma parcela considerável dos motoristas dirigissem bêbados. Porém, logo imediatamente à esta proeza, a descontinuidade da proposta fez com que tudo voltasse ao normal.

Ah, sabe quanto custou a vida de Aurinete? Não mais que 900 reais, o teto do bafômetro vendido na net.

Para saber mais sobre o acidente: http://jc.uol.com.br/2008/12/13/not_187324.php

E para complementar, notícia de última hora: http://www.diariodepernambuco.com.br/2008/12/15/urbana1_0.asp


Responses

  1. Amei o texto!
    É triste de ler, ver e de saber que um monte pessoas morreram vítimas de acidentes de trânsito. E mais triste ainda a maioria foi vítima de de pessoas que encheram a cara e pegaram o carro com a desculpa de que “estou dirigindo bem”, ” eu dirijo com mais cuidado qdo bebo”…Tudo conversa de pessoas egoísta que não respeita e valoriza a vida do outro.

    Outra coisa, se as blitzs quiserem mesmo pegar estas pessoas é só ficar próximos aos bares…Será que é tão difícil????!!!!

  2. Gostei do texto, é triste como a vida vale tão pouco!Você falou coisas corretas do ponto de vista moral e teórico: a vida deveria valer mais, pessoas que dirigem bêbadas e causam esse tipo de infração, deveriam ser sumariamente convidadas a uma longa estadia atrás das grades!Vendo mais teoricamente, as pessoas tendem a obedecer a lei, quando têm a sensação de estarem sendo monitoradas, mesmo quando a fiscalização e a coerção não estão ao seu lado o tempo inteiro; pessoas agem para realizar os seus desejos e entre os seus desejos e à sua execução, formam-se as crenças e as crenças dizem das possibilidades de realização dos desejos.Existindo a imprevisibilidade para com a realização do desejo de dirigir bêbado, os atores sociais, para encontrar uma situação satisfatória daquilo que querem, pensarão em outros caminhos, mudarão as suas crenças e mudarão as suas ações, e isso será duradouro, desde o momento em que a lei pareça universal, cristalina em seu entendimento e que essas caracteristicas durem o suficiente para se “sedimentar”, serem reforçadas, e mudarem o conjunto de crenças que as pessoas têm sobre o álcool e a direção.Desculpe ter me alongado!Abraço, Eduardo!!


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