Publicado por: Eduardo Bezerra | Dezembro 9, 2008

E a cidade? O que é, afinal?

decadade1960jc92Água? É uma molécula composta por dois átomos de hidrogênio e uma de oxigênio. Saúde? De acordo com a OMS, o estado de completo bem-estar físico, mental e social. E a cidade? Bem, aí é mais complicado. Apesar de uma profusão de idéias acerca do que seriam, as definições se tornam tão retsritivas a ponto de não se aplicarem amplamente no socorro àqueles (como eu) que necessitariam desta ajuda conceitual valiosa.

Mas, para isso, é necessário estabelecer um triângulo de diferenças: o município, o urbano e a cidade. Obviamente as semelhanças são mais facilmente percebidas em função de suas características se confundirem. Assim, neste momento, salientar a diferença entre elas se faz mais útil.

Algumas coisas carregam consigo um conjunto de curiosidades. O município, por exemplo, é alvo de uma série de ações, responsabilidades e contrapartidas e, ainda assim, não conta com uma definição transversal do que o mesmo seria. A Constituição Federal de 1988 deveria ser, por seu papel norteador enquanto lei máxima do país, o local onde a nação, estados e municípios estariam definidos em função e responsabilidade. Não acontece. O mais próximo que temos disso é o artigo 41 do Código Civil, onde o município é uma pessoa de direito público interno. Para não afirmar que a Constituição absolutamente não posiciona o ente municipal, ele coloca o mesmo como parte indissolúvel da União, junto com o estado.

Por urbano é bem menos complicado quando contamos com o auxílio indispensável de Manuel Castells e Milton Santos. O primeiro, espanhol, alocado na escola francesa no que tange aos estudos sobre as cidades, é autor do clássico “A Questão Urbana”. O segundo, brasileiro, geógrafo genial, promoveu debates tão sortidos que vão da democracia ao espaço urbano, passando pela discussão da globalização. Castells diz que o urbano “é uma forma especial de ocupação do espaço por uma população, a saber, o aglomerado resultante de uma forte concentração e de uma densidade relativamente alta, tendo correlato previsível uma diferenciação funcional maior”.

Santos corrobora esta visão com a idéia de diversificação das atividades  no perímetro urbano proporcional ao tamanho do aglomerado. Assim, não é difícil perceber que um município pode agrupar diversos segmentos urbanos, uma vez que o mesmo inclui vilas, distritos, sedes, aglomerados mais ou menos desenvolvidos, além de sua área rual, quando o mesmo a possui. Porém, em qual ponto isso se converte na imagem das cidades? Como isso pode contribuir para definir o que é a cidade?

O professor Marcelo Lopes de Souza, carioca, doutor em Geografia, faz uma observação importante sobre o momento do definir. O mesmo representa a busca pela abstração no momento da captação das regularidades daquilo que desejamos definir. Mas para isso não vou recorrer a Weber, Colby, Cristaller ou outro, como fez o professor. Ousarei, mesmo que sem nenhuma pretensão, expor minha idéia de cidade.

Faço isso por achar o que temos muito economicista, quando não cosmopolitas ou megalopolistas demais. Geralmente são idéias cujo grau de compreensão não vão além das grandes cidades, referências indicutíveis de urbanização. De acordo com o Censo Demográfico de 2000, com algumas informações compiladas no Atlas do Desnvolvimento Urbano Brasileiro, dos mais de 5.500 municípios do Brasil, apenas 107 tem mais de 200.000 habitantes. Mais de 4.000 tem menos de 25.000 pessoas. Será que esta idéia de cidade leva em conta estes lugares?

Municípios menores não são centros comerciais de destaque, focos de desenvolvimento econômico de grande monta, raramente são pontos de difusão cultural. Vivem em função de sua própria realidade, muitas vezes. O que fazem delas cidades, enfim? O aglomerado? Pode ser, mas isso isoladamente, quando muito, define o perímetro urbano. O que leva as pessoas a se aproximarem, manter relações, trocar energia? Há grupamentos originários ao redor de feiras, outros periferizando um porto, fábricas. Há sempre uma faísca capaz de juntá-los.

Isso cria um esforço coletivo, um direcionamento de forças em direção a um único lugar. Essa força vital atrai outras pessoas atraídas por esta efervescênia e isso, gradativamente vai construindo uma necessidade de diversificar aquele local. Essa vivência cria uma história e gradativamente uma identidade. Talvez seja esta identidade o elemento capaz de definir a cidade. Recorro mais uma vez a Milton Santos quando, belamente, faz uma diferenciação entre a paisagem e o espaço, colocando o primeiro como o conjunto de formas realizadas pelo homem na natureza. O espaço seria as formas mais a vida que as anima.

Num mundo financista e quantificador, cada vez menos as microrrelações entre as pessoas são consideradas no momento de conhecer o coletivo. As cidades não fogem a esta lógica. Como abordar ainda tão parcamente um local que representa o máximo de nossa coesão social. Não há lugar onde o ser humano se encontre tão influente ou influencido pelos demais. O post começa com uma pergunta e finaliza com a certeza de não tê-la respondido. Pelo menos ainda. Tentemos porém.

Sugestão de leitura: Teorias da Cidade. Barbara Freitag. Papirus Editora.

Sugestão de Filme: Roger e Eu. Michael Moore. Este vale a pena assistir. No clássico estilo Michael Moore de ser, ele filma sobre o nascimento, apogeu e agonia de sua cidade natal (Flint, Michigan), local onde nasceu a General Motors e uma daquelas que a fábrica primeiro fechou em função dos incentivos fiscais de países em desenvolvimento.


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