Publicado por: Eduardo Bezerra | Dezembro 6, 2008

SUS: Uma Igreja de 20 Anos

sus_20_anosO que representa comemorar os 20 anos do Sistema Único de Saúde? Não há dúvidas deste ser um marco histórico, passível de mobilizações em instâncias diversas. Mas antes de avançar no texto, uma breve pausa etmológica. Diferente do sentido festivo dado ao verbo, comemorar é uma construção latina que significa (de acordo com o Houaiss) trazer à lembrança, recordar. Co é um prefixo com significado de união, estar junto. Memoráre, relativo a lembrar. Distinto à etmologia do celebrar, cujo significado latino remonta à divulgação, festa ou elogio.

Assim, o comemorar não é necessariamente profano. Sobretudo na sisudez sanitarista a utilização indiscriminada deste termo pode levar a uma interpretação pejorativa. Comemoremos, portanto, os 20 anos do SUS. Uma conquista histórica, representante autêntica da quebra do paradigma da relação unilateral e vertical do governo em relação ao povo. A vivência utópica do SUS leva a hierarquização ascendente do mesmo, por intermédio de um fluxo de informações em mão-dupla.

Mas isso é o que nós, sanitaristas, sabemos. Ao levar em conta que falamos de uma política pública, é importante fazer a pergunta primária para a efetivação do Sistema: a população sabe o que é o SUS?

Muito provavelmente não. Ou pelo menos, não da forma como deveriam estar instrumentalizados. Falamos de uma estrutura previdente de pilares governamentais e civis e estes só estão validados a manobrarem suas peças caso conheçam a regra do jogo. Assim, será que cumprimos o nosso papel de ensinar a jogar?

A mim, pessoalmente, estes processos de reforma remontam à tônica da Revolução Francesa. Liberdade, igualdade e fraternidade. Promessa feita, o povo assume a posição de soldados dos pilares da jovem noção de justiça social, aguardando o que para eles significaria a mudança (Change, Obama, change!!). Monarquia derrubada, o povo continua povo, na condição e na exclusão, pseudo alimentados pela idéia de justiça. Mas qual a justiça que eles esperavam? Quantos daqueles que lutaram anônimos ascenderam a construtores políticos?

Observando a lista de “organizadores da festa” da VIII Conferência Nacional de Saúde, marco para a construção do SUS, pesquisei quem eram os ciccerones. Nenhum dos movimentos sociais, associação de moradores, líderes comunitários, grau de estudo básico ou médio. “Mas era a Conferência”, alguns poderiam proferir. Seria simbólica a presença destas pessoas que ajudaram a preencher a alma do Sistema de idéias do que seria a prática sanitária futura. O SUS não nasceu no gabinete, nasceu na comunidade. Não era possível que ele existisse apenas com a benevolência e sagacidade dos profissionais de saúde. A população participou efetivamente deste momento e, na hora de adentrar no prédio construído por ela, continuou soldado, continuou peão. Que tipo é este de democracia que gostaríamos de construir?

Dogma. De acordo com o recorrente Dicionário Houaiss, significa algo que é certo e indiscutível, cuja verdade as pessoas aceitem sem questionar. É nisso que estamos transformando o SUS? Um conjunto de normas dogmáticas? Onde estão os questionamentos que irão construir e corrigir os rumos? Falar do Programa de Saúde da Família é uma heresia. Da relação entre os entes hierárquicos, um pecado mortal. Pena de morte para quem ousar desconfiar do controle social.

Universalidade, integralidade e equidade. Princípios básicos e pilares estruturais não completamente implementados. Destes, talvez apenas o primeiro se mostre mais avançado (do contrário, o próprio Sistema estaria em risco de morte infantil). Mas a visão da integralidade se mostra ainda pouco aprofundada. O mundo-umbigo contamina o entendimento deste princípio. A integralidade não se encontra apenas na área da saúde e, apesar de todos saberem que não, enquanto o SUS não descobrir as demais políticas públicas, será difícil avançar de forma sustentável. A equidade é mais uma idéia que algo operacional.

Mas são vinte anos. Muito se caminhou. Mais ainda se tem para caminhar. Precisamos agora de concretude, menos discurso, mais prática, deixar Marx em paz e cónstruir nossa própria filosofia e análise da realidade. O SUS é nosso e continua sendo nossa responsabilidade fazê-lo avançar. Sem dogmatização.

Cidadão

Composição: Lucio Barbosa

Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado, tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Pus a massa fiz cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
Pai vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar
Esta dor doeu mais forte
Por que que eu deixei o norte
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Tá vendo aquela igreja moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Lá sim valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que cristo me disse
Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar

Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar

Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar

Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar


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