Publicado por: Eduardo Bezerra | Novembro 6, 2009

O Biomédico e a Saúde Pública

Que eu sou biomédico não deve ser novidade nenhuma para alguns de vocês. Por outro lado, muitos não associam minha atuação profissional à graduação que escolhi. Toda revolução proporcionada pela criação do Sistema Único de Saúde não foi suficiente para despertar entre meus pares o interesse ou a mínima curiosidade por este campo específico. E apesar de estar já a bastante tempo entre as atribuições da profissão, só em 2007, o Conselho Federal de Biomedicina reconheceu a saúde pública efetivamente como especialidade.

Entretanto, já em algumas oportunidades tenho observado o aumento da curiosidade pela área. Sempre tive a impressão que o fato de não haverem muitos professores biomédicos lecionando e compartilhando suas experiências na saúde coletiva foi um elemento dificultador de conquistas maiores. Geralmente os responsáveis por esta disciplina em nível de graduação são médicos, enfermeiros, nutricionistas e, se brincar, astrólogos e futurólogos. Tudo, menos biomédicos.

Antes de tudo é importante ressaltar que a função de um professor não é a de apenas repassar conteúdos ou provas. Estes são o primeiro referencial de meta profissional com os quais os alunos mantêm contato. Portanto, uma vivência intensa e marcante de alguma disciplina pode não levar as pessoas a optarem por esta ou aquela especialidade mas certamente não vão deixá-las alheias à sua presença. Por isso, um exemplo próximo nesta trajetória pode render frutos bem promissores.

Venho tendo oportunidade de manter uma vivência mais intensa com os alunos da graduação em virtude de algumas aulas dadas como professor convidado. É interessante observar a cara de tédio no momento o qual entro nas salas. Enquanto monto o computador e ligo o projetor, fico analisando em silêncio a reação de cada um ao contato com temas da saúde coletiva.

No último dia 30 de outubro esta reação foi um pouco distinta. Convidado para ser palestrante no 6º Congresso Alagoano de Biomedicina, 2º Congresso do Instituto Nacional de Biomedicina e 2º Encontro Regional de Estudantes de Biomedicina, encontrei um público diferente. Não entediados, não desinteressados, mas, por assim dizer, ansiosos. Não era o relato de uma pessoa estranha à realidade do biomédico. Talvez alguns tenham pensado: “Esse vai falar pra gente.”

É difícil abordar a saúde pública para biomédicos. Nem as nossas entidades representativas (como Conselhos e Sindicatos) se mobilizam por este campo tão amplo, promissor e acolhedor  para nós. Para que não se ache que esta é uma crítica vazia ou ressentida, cito um fato. Talvez não haja área tão distante da biomedicina quanto a Atenção Básica. Como nós nos reconhecemos quase que exclusivamente enquanto profissionais de laboratório, parece que o SUS nos reserva apenas espaço no Apoio Diagnóstico. Entretanto há algum tempo temos profissionais reconhecidos em outra atribuição: a acupuntura. Nem assim, isso foi suficiente para nossos Conselhos brigarem pela nossa inclusão em uma área contemplada no NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família). A acupuntura só foi garantida para médicos, apesar de nossa atribuição ser assegurada por lei.

A saúde pública é um campo de coletividade, postura raramente estimulada em nossa formação. Somos um grupo forjado para o isolamento dos laboratórios de pesquisa e análises. Ensimesmados em nossos microscópios, contadores de hemácias, peagâmetros e outros bribotes, vamos levando nossa profissão e militância em silêncio muitas vezes constrangedor. Não é necessário ser um sanitarista para atuar neste campo, basta ter noção de sua responsabilidade e possibilidade de contribuição para a saúde e a sociedade.

Até esse laboratório, nossa casa imposta, é subvalorizado por nós. Transformamos este espaço de atuação em uma fábrica onde chegam icógnitas e saem certezas. Onde está o aproveitamento das informações geradas nestes locais, sobretudo quando estão localizados no ente público? O que fazemos com o infindável número de exames processados todos os dias em cidades diversas no Brasil? É justo perdermos um conjunto tão valioso de dados importantes para estruturar nossas políticas de saúde e influenciar positivamente na vida dos cidadãos e cidadãs?

São situações como estas que demonstram que, apesar de fisicamente distantes do público, não precisamos estar tão apartados assim de seus problemas e angústias. Somos parte do Sistema Único de Saúde tão fortemente quanto as demais profissões e precisamos nos fazer fortes e significativos. Só quando nos valorizamos os outros fazem o mesmo. Saliento mais uma vez que não é preciso ser um sanitarista para operar dentro da saúde pública, basta ser um profissional consciente de sua responsabilidade.

Sou um biomédico-sanitarista-professor-gerente-consultor que tenho a chance de percorrer diversos ambientes povoados ou não por outros biomédicos. Por onde vou, ressalto não ser de um grupo nem mais nem menos que outras profissões. Somos diferentes e, como tal, complementares entre nós. Lutemos pelo espaço conquistado pois o poder não é algo dado de bom grado, é brigado com muito suor. Cada espaço de luta que abrimos mão é um local que perdemos. Cada espaço perdido é mais difícil de ser reconquistado. Mesmo assim, lutemos para manter o que temos, conquistar o que não temos e reconquistar o que perdemos.

Já ia esquecendo de algo que comecei lá no alto. Ao entrar nas salas de aulas encontro alunos bastante entediados em assistir a mais uma aula de saúde pública. Mas saio feliz de lá ao ter que demorar mais um pouco respondendo perguntas de como saber mais sobre esta área e quais são as possibilidades do biomédico. Sei que nem todos vão se tornar sanitaristas, mas uma boa parte não ficará mais imune a este campo.

Foto roubada de Lílian Dias

Lílian Dias logo após a palestra em Maceió. Foto "roubada" de seu orkut.

roubada de lílian dias

Com participantes do Congresso em Maceió (foto "roubada" de Lílian Dias)

Foto roubada de Jean

Jean me entregando a lembrança do Congresso (foto "roubada" de Jean Arthur)

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Responses

  1. Belíssimo texto. Também sou Biomédico e desde o início da minha carreira profissional tenho atuado em saúde pública. Hoje sou gestor em dois laboratórios em duas prefeituras e me identifiquei muito com tudo explanado no artigo em questão. Estou participando do curso de qualificação de gestores do SUS pela Fiocruz e estou tendo uma ótima oportunidade de apresentar aos colegas de curso a formação Biomédica.

  2. É muito bom ver um biomédico trabalhando numa área como a saúde pública, embora muita gente desconheça que essa também é uma área de atuação da biomedicina. É interessante a reação dos estudantes ao termo “saúde pública” e é surpreendente a reação dos mesmos ao ter contato com o tema a partir de Eduardo =). Fico feliz por ver um biomédico fazendo sucesso naquilo que gosta e elevando o nome da categoria, espero ser assim um dia =)

  3. Ontem, depois da palestra pelo Dia da Biomedicina, comentei com você sobre só “me tocar” em nosso papel na Saúde Pública depois de assistir uma aula sua como professor convidado.

    Bem… Não decidi ser sanitarista, e talvez nunca queira, mas você pode ter certeza que tive mais consciência do meu verdadeiro papel como biomédica que serei.

    Nós precisamos enxergar além das janelas do laboratório e entender o porquê do que estamos fazendo.

    Parabéns! É muito bom ter um representante da Biomedicina como você.

  4. Oi sou estudante de Biomedicina, e gostaria de saber onde exatamente o biomédico pode atuar sem serna , nossa casa imposta, como citastes muito bem em teu artigo, “laboratório” dentro da saúde pública. Gostaria de fazer mais pela saúde pública, Mais do que recolher ingógnitas e achar respostas. Poderias me orientar?

  5. sou academico de biomedicina, gostaria de me especializar em saude publica, gostaria de saber tudo sobre a area de trabalho locais, grato.

  6. Olá, sou estudante do 2º ano de biomedicina. Gostaria lhe pedir mais informações sobre a atuação do biomédico na área de saúde pública e parabenizá-lo por seu trabalho. Espero que ações como as que você desenvolve sejam cada vez mais valorizadas! Desde já, obrigado!

  7. Oi,sou acadêmica de biomedicina na Universidade Federal do Piauí e queria parabenizá-lo pelo seu esforço de trazer a Saúde Pública para nossa area,gostaria que você me informasse qual a contribuição do biomedico para a Saúde Publica.Agradecida.

  8. Muito bom o seu relato sobre a área confesso que não sabia como funcionava e gostaria de saber como faço pra entrar em contato pois tenho um trabalho justamente sobre o biomédico sanitarista e você ama o que faz e vai trazer otimos relatos sobre a área sem falar que o que disse realmente é não encontro nada que diga como é a rotina do bioméco sanitarista.

    Aguardando retorno.

    Rosiane Costa.

  9. Oi sou estudante de Biomedicina 5 semestre, e gostaria de saber onde exatamente o biomédico pode atuar na saúde pública, Mais do que recolher ingógnitas e achar respostas. Poderias me orientar?

  10. Oi sou estudante de Biomedicina, e gostaria de saber onde exatamente o biomédico pode atuar dentro da saúde pública.E dentro da vigilância sanitária e ambiental tem algum campo para nós biomédicos? Poderias me orientar? Obrigada

  11. Caríssimo,
    Li o seu artigo, e vislumbro grandes e promissoras carreiras na área sanitária. Estou fazendo o primeiro semestre de Biomedicina, sou auxiliar de enfermagem, e mesmo com meus 44 anos, decidi que é exatamente na área sanitária que desejo desbravar a nova profissão, com garra e determnação. Mas para tanto, gostaria de informações de como eu possa conseguir estágios na área sanitária, exigência do Conselho para habilitar o exercício da profissão. É certo que ainda é cedo para pensar nisso, no entanto caríssimo, ja penso desde já, e se quero tal coisa, é desde já que tenho que me preocupar, tanto com estágios, como em especialização!
    Se o amigo puder me enviar informações, serei muito grato!
    E parabéns pela belíssima escolha!

  12. Bom dia, fico muito feliz em ver um biomédico realizado com sua profissão, onde muitas vezes não somos reconhecidos profissionalmente, sou formada em biomedicina, gostaria de me especializar em saude publica, gostaria de saber tudo sobre a area de trabalho , grata.

  13. Curso Biomedicina e na minha faculdade (Faculdade ASCES, Caruaru-PE) a professora que leciona saúde coletiva é biomédica.

  14. Olá, boa tarde! Sou Biomédica e gostaria de saber se posso trabalhar no NASF da minha cidade? Surgiram duas vagas e eles disseram que o Biomédico não faz parte dos profissionais do quadro.

  15. Provavelmente é verdade, Manuela. O quadro de profissionais do NASF é determinado por portaria municipal e dificilmente o biomédico está inserido nelas. É bastante improvável que estejamos num NASF em curto prazo…

  16. Oi sou estudante de Biomedicina, e gostaria de saber onde exatamente o biomédico pode atuar dentro da saúde pública.

    Aguardando retorno.

  17. Olá, boa noite!
    preciso do seu e-mail para contato, vc poderia me passar por favor?!

    sou estudante de biomedicina e estou fazendo um trabalho sobre saúde pública e gostaria de algumas informações!

    caso queira entrar em contato comigo, meu e-mail é brenno pereira@gmail.com

    obrigado desde já,
    att.
    brenno

    • Estou na mesma situação. se pudesse me mandar seu email para me esclarecer algumas informações estaria muito grata.
      Att
      Gabriela


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