O Biomédico e a Saúde Pública

Novembro 6, 2009 por Eduardo Bezerra

Que eu sou biomédico não deve ser novidade nenhuma para alguns de vocês. Por outro lado, muitos não associam minha atuação profissional à graduação que escolhi. Toda revolução proporcionada pela criação do Sistema Único de Saúde não foi suficiente para despertar entre meus pares o interesse ou a mínima curiosidade por este campo específico. E apesar de estar já a bastante tempo entre as atribuições da profissão, só em 2007, o Conselho Federal de Biomedicina reconheceu a saúde pública efetivamente como especialidade.

Entretanto, já em algumas oportunidades tenho observado o aumento da curiosidade pela área. Sempre tive a impressão que o fato de não haverem muitos professores biomédicos lecionando e compartilhando suas experiências na saúde coletiva foi um elemento dificultador de conquistas maiores. Geralmente os responsáveis por esta disciplina em nível de graduação são médicos, enfermeiros, nutricionistas e, se brincar, astrólogos e futurólogos. Tudo, menos biomédicos.

Antes de tudo é importante ressaltar que a função de um professor não é a de apenas repassar conteúdos ou provas. Estes são o primeiro referencial de meta profissional com os quais os alunos mantêm contato. Portanto, uma vivência intensa e marcante de alguma disciplina pode não levar as pessoas a optarem por esta ou aquela especialidade mas certamente não vão deixá-las alheias à sua presença. Por isso, um exemplo próximo nesta trajetória pode render frutos bem promissores.

Venho tendo oportunidade de manter uma vivência mais intensa com os alunos da graduação em virtude de algumas aulas dadas como professor convidado. É interessante observar a cara de tédio no momento o qual entro nas salas. Enquanto monto o computador e ligo o projetor, fico analisando em silêncio a reação de cada um ao contato com temas da saúde coletiva.

No último dia 30 de outubro esta reação foi um pouco distinta. Convidado para ser palestrante no 6º Congresso Alagoano de Biomedicina, 2º Congresso do Instituto Nacional de Biomedicina e 2º Encontro Regional de Estudantes de Biomedicina, encontrei um público diferente. Não entediados, não desinteressados, mas, por assim dizer, ansiosos. Não era o relato de uma pessoa estranha à realidade do biomédico. Talvez alguns tenham pensado: “Esse vai falar pra gente.”

É difícil abordar a saúde pública para biomédicos. Nem as nossas entidades representativas (como Conselhos e Sindicatos) se mobilizam por este campo tão amplo, promissor e acolhedor  para nós. Para que não se ache que esta é uma crítica vazia ou ressentida, cito um fato. Talvez não haja área tão distante da biomedicina quanto a Atenção Básica. Como nós nos reconhecemos quase que exclusivamente enquanto profissionais de laboratório, parece que o SUS nos reserva apenas espaço no Apoio Diagnóstico. Entretanto há algum tempo temos profissionais reconhecidos em outra atribuição: a acupuntura. Nem assim, isso foi suficiente para nossos Conselhos brigarem pela nossa inclusão em uma área contemplada no NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família). A acupuntura só foi garantida para médicos, apesar de nossa atribuição ser assegurada por lei.

A saúde pública é um campo de coletividade, postura raramente estimulada em nossa formação. Somos um grupo forjado para o isolamento dos laboratórios de pesquisa e análises. Ensimesmados em nossos microscópios, contadores de hemácias, peagâmetros e outros bribotes, vamos levando nossa profissão e militância em silêncio muitas vezes constrangedor. Não é necessário ser um sanitarista para atuar neste campo, basta ter noção de sua responsabilidade e possibilidade de contribuição para a saúde e a sociedade.

Até esse laboratório, nossa casa imposta, é subvalorizado por nós. Transformamos este espaço de atuação em uma fábrica onde chegam icógnitas e saem certezas. Onde está o aproveitamento das informações geradas nestes locais, sobretudo quando estão localizados no ente público? O que fazemos com o infindável número de exames processados todos os dias em cidades diversas no Brasil? É justo perdermos um conjunto tão valioso de dados importantes para estruturar nossas políticas de saúde e influenciar positivamente na vida dos cidadãos e cidadãs?

São situações como estas que demonstram que, apesar de fisicamente distantes do público, não precisamos estar tão apartados assim de seus problemas e angústias. Somos parte do Sistema Único de Saúde tão fortemente quanto as demais profissões e precisamos nos fazer fortes e significativos. Só quando nos valorizamos os outros fazem o mesmo. Saliento mais uma vez que não é preciso ser um sanitarista para operar dentro da saúde pública, basta ser um profissional consciente de sua responsabilidade.

Sou um biomédico-sanitarista-professor-gerente-consultor que tenho a chance de percorrer diversos ambientes povoados ou não por outros biomédicos. Por onde vou, ressalto não ser de um grupo nem mais nem menos que outras profissões. Somos diferentes e, como tal, complementares entre nós. Lutemos pelo espaço conquistado pois o poder não é algo dado de bom grado, é brigado com muito suor. Cada espaço de luta que abrimos mão é um local que perdemos. Cada espaço perdido é mais difícil de ser reconquistado. Mesmo assim, lutemos para manter o que temos, conquistar o que não temos e reconquistar o que perdemos.

Já ia esquecendo de algo que comecei lá no alto. Ao entrar nas salas de aulas encontro alunos bastante entediados em assistir a mais uma aula de saúde pública. Mas saio feliz de lá ao ter que demorar mais um pouco respondendo perguntas de como saber mais sobre esta área e quais são as possibilidades do biomédico. Sei que nem todos vão se tornar sanitaristas, mas uma boa parte não ficará mais imune a este campo.

Foto roubada de Lílian Dias

Lílian Dias logo após a palestra em Maceió. Foto "roubada" de seu orkut.

roubada de lílian dias

Com participantes do Congresso em Maceió (foto "roubada" de Lílian Dias)

Foto roubada de Jean

Jean me entregando a lembrança do Congresso (foto "roubada" de Jean Arthur)

O IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (ou, e agora, quem poderá nos defender?)

Novembro 5, 2009 por Eduardo Bezerra

 

Luz no fim do túnel?

Ainda há chance?

 

 

Para mim é difícil dizer (ou escrever, como queiram) o que pensar do que vi e ouvi no IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva. Realizado entre os dias 31 de outubro e 04 de novembro, no Centro de Convenções de Pernambuco, pudemos observar um evento no mínimo contraditório, paradoxal. Muito sinceramente gostaria de dizer que a luz no fim do túnel ficou um pouco mais forte. Por mais que me esforce não tenho argumentos para tanto.

Não afirmo porém que o mesmo foi decepcionante. A decepção é uma qualidade diretamente ligada à expectativa e, como a minha era baixa, não houve grandes prejuízos. Creio até que os fatos falam por si só.

No espaço do congresso, cerca de 7.000 pessoas circulavam em salas, stands, auditórios, livrarias, lanchonetes e tendas. Numa época onde o interesse pela qualificação reduz gradativamente, este número é espantoso. Para se ter idéia, esta população de inscritos, trabalhadores e convidados foi maior que as de cerca de 2.000 cidades do Brasil.

Os primeiros  momentos do Congresso podem ser considerados ao menos como “engraçados”. Imaginem um Congresso de Saúde C0letiva invadido por mosquitos. Não eram alguns, eram muitos. Cenas inusitadas puderam ser vistas como pessoas se besuntando de repelente e, em meio ao calor nordestino, camisas de mangas compridas. O pior? A infeliz idéia da Secretaria de Saúde do Estado de distribuir o folhetinh “Seja um Mosqueteiro”. Quando eu vi as pessoas que trabalhavam no local com raquetes elétricas pensei se não seria melhor o slogan “Seja um Tenista!” junto com uma foto do Guga.

Entretanto, antes de falar dos problemas e contradições, vamos ao que foi bom. Além da oportunidade de encontrar amigos cuja profissão leva a uma certa diáspora, a possibilidade de ouvir deles uma gama infindável de outras experiências e realidades faz dos corredores e lanchonetes um espaço de eferverscência inigualável. Grandes debates não foram presenciados de cadeiras acolchoadas. Algumas comunicações coordenadas aconteceram encostadas em pilastras, entrelaçadas por uma ou outra boa gargalhada. Para mim o verdadeiro espírito do encontro. Além disso, a presença das editoras proporciona o acesso à literatura geralmente distante geograficamente da grande maioria das pessoas ali presentes. Uma festa para os olhos, uma tragédia para o bolso. Mas calma, o 13º vem aí (para aqueles que o recebem, é claro).

Seria hipocrisia minha dizer que o ponto alto do evento não foi a presença do presidente Lula (apesar de minha opinião pessoal ter apontado para a Orquestra Criança Cidadã). O “cara”, mesmo sem intenção, nos deixa valiosas lições. A maior de todas elas é que o que nos separa do povão pobre e analfabeto é a conta bancária e a marca do perfume. O resto é tudo igual.  O presidente nos mostra que somos todos massa, somos todos urbe, e que não há bobagem tão grande que não possa ser demolida por uma boa oratória. O governador Dudu também tem seus méritos e reza na mesma cartilha. Comunicadores natos. O que não dá para entender num público esclarecido como aquele é o seguinte: como o Empresár… Secretário de Saúde de Pernambuco e o Ministro da Saúde são vaiados e os seus chefes não?Absolutamente tudo o que eles fazem necessita de autorização de seus superiores. Como eu disse, somos todos iguais, inclusive na possibilidade de ser massa.

Em relação a isso lembrei de uma das apresentações de posters que coordenei no evento. Em um determinado trabalho o apresentador fez o comentário que sai da boca de muitos professores do campo da saúde (infelizmente), o de que os estudantes treinam no corpo do pobre para trabalhar no corpo do rico. Essas mesmas elites esquecem que os acidentes graves são quase todos recolhidos para o setor público. Caso alguém dessa elite necessite de um transplante, é no SUS que ele vai conseguir atenção. O corpo do pobre e do rico têm as mesmas estruturas.

Outro ponto interessante foi a palestra de Paim. Tenho a impressão que hoje ele representa um Sílvio Santos da saúde pública. Dotado de uma oratória maravilhosa e um conjunto de falas invejável, consegue dizer tudo aquilo que os sanitaristas adoram ouvir. Inserir palavras como sociedade, pobreza, exclusão, defesa do SUS e a infame “radicalização da democracia”, parece ser a placa de aplausos da atualidade na saúde coletiva. Na minha opinião (que fique bem claro que é a minha) a fala de Jairnilson é o mais-do-mesmo. Curiosidade foi observar que as palmas que ele desferia a cada fala do coordenador de sua mesa cessaram no momento no qual o mesmo desancou a privatização travestida do setor saúde. Será que a palma da mão de Jairnilson estava doendo? Eu sei que não…

O futuro da saúde pública não é nada bom e com a atual cabeça dos gestores, gerentes, trabalhadores, pesquisadores, acadêmicos, professores e do movimento social, isso não é novidade. Notícia triste é saber que a Fiocruz está indo para o mesmo buraco, prestes a ser “privatizada” numa manobra semelhante a que o governador Duduzinho fez aqui em Pernambuco. Pouco tempo de debate, nenhuma participação da sociedade, prazos reduzidos para a decisão, enfim, a velha tática.

E, no vai e vem dos fatos, a certeza que o fosso entre o discurso e a prática vai ficando cada vez mais distante. Uma certa tristeza de que o contexto atual da saúde pública não é culpa dos políticos. Estes fazem exatamente aquilo que se espera deles: o lobby, a negociata, a enganação, o eterno não dá. A culpa de tudo isso é  nossa enquanto sanitaristas, militantes, cidadãos. O ente político não nos teme mais, uma vez que passamos todo nosso tempo teorizando, sanitarizando a realidade e nos preocupando com nossos financiamentos cada vez mais parcos.

E o SUS? Bem, o SUS tenta seguir sem nossa presença efetiva.

Para os alunos da Joaquim Nabuco e a quem interessar

Setembro 25, 2009 por Eduardo Bezerra

Abaixo seguem dois links, cada um relativo a um documento referencial da Atenção Primária em Saúde. Façam o download e procurem consultar sempre que puderem.

Atenção Primária: Equilíbrio Entre Necessidades de Saúde, Serviços e Tecnologia (Barbara Starfield)

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14609

Renovação da Atenção Primária em Saúde nas Américas (OPAS)

http://www.paho.org/portuguese/ad/ths/os/phc2ppaper_10-ago-05_Por.pdf

Atualização

Aula de Maristela Menezes.Apresentação da Experiência de Recife PARA ESPECIALIZAÇÃO jOAQUIM NABUCO SET 2009

Aula de Eduardo Bezerra. aula joaquim nabuco

Boa Sorte!

Mais uma mudança de rumo

Maio 16, 2009 por Eduardo Bezerra

Antes foi a cidade que mudou. De Recife passamos para Olinda. 

Agora é o título e algumas coisinhas mais que, aos poucos, vvou mostrando a vocês. Está chegando a hora de me ater mais na pesquisa neste espaço.

O novo título é: Homicídios e Acesso aos Espaços de Sociabilidade em Olinda – PE

Prometo por estes dias abordar cada pedaço desta proposta. 

De volta…

Maio 16, 2009 por Eduardo Bezerra

Gostaria de me desculpar aos amigos e amigas que passaram por aqui esse último mês e só viram baratas, ratos e outros bichos do abandono. Bem, com eles certamente vocês estiveram bem melhor acompanhados que de minha mente atormentada com esta qualificação maluca. 

 

Estou de volta!!!!

Quando Jesus tirou as mãos da cruz

Março 7, 2009 por Eduardo Bezerra

 

Ouço gritos…

Aos poucos a luz deixa de ofuscar meus olhos e vejo um movimento lá fora. Ponho a cabeça meio de lado e reconheço aquelas pessoas. Sei quem é cada uma delas. Bem, pensam que eu não saio só porque me pregaram nesta cruz. Meu corpo de pedra, gesso, acrílico, barro, o que seja, fica na parede. Mas meu espírito passeia.

Ouço um choro também. Quem são estas? Quem é esta criança que chora aqui? Parece ser só uma, mas no corpo franzino choram milhares, milhões de outras meninas. Violentadas, espancadas, roubadas no sonho, estupradas, assaltadas na alma. Ela chora só, mas seu soluço é repleto de ecos que não têm fim.

 

E essa mulher assustada. Quem é? Segura a mão da filha, solidária na dor, apesar de sua própria escara. É a mãe. Sei quem é ela assim como sei quem são todos. Ela é como tantas mães que, acima de tudo, são mulheres. Com desejos desconsiderados, vaidades injuriadas, tesões reclusos, cidadania negada. Assim como a filha, é uma mulher cheia de muitas. Quase nunca unidas no amor e na justiça. Quase sempre unidas na dor e na violência.

 

Quantas pessoas ao redor delas… A igreja está cheia. Nem todos católicos, nem todos cristãos. Todos fiéis da religião universal, aquela que une a todos e todas: o amor. Uma religião que não tem templo fora de nosso corpo, não precisa de sacerdote, não tem batismo. Nada. E tudo. Seu dízimo é a solidariedade.

 

Mas há gritos e eu ouvi. Não o reconheço. Fala em meu nome? Não posso me mexer. Meus braços estão presos, minhas mãos estão presas. Será que é por isso que me prenderam aqui? Aqueles que gritam se vestem com riqueza. O cajado na mão não é de madeira como o dos pastores. É dourado. Imponente. Usam cruzes e me vejo nelas.

 

São raivosos. Já vi isso antes. O sangue que jorrou de seu ódio contra os diferentes ainda suja minhas poucas roupas. Já não sei mais qual é o meu sangue ou o sangue do outro. Mortos na fogueira. Mortos em praça pública. Enxotados pela sua crença. Sangue de mulheres-bruxas. Sangue de mulheres. Sangue de homens. Sangue de seres humanos. Mortos pela omissão, ignorância, ganância ou pura maldade.

 

Que palavras são essas proferidas com tanta autoridade? Excomunhão? Pai, morri para isso? Quem disse que ele tem autoridade para falar em meu nome e expulsar um irmão de minha casa? O aborto é mais grave que o estupro ou o assassinato. Quem disse? Quem estabeleceu os valores? Ah! Os Concílios e Códigos Canônicos. A bolsa de valores do pecado. Esquecem que a violência do corpo mata em vida. Há valor para isso?

 

Sinto os pregos caírem de meus pulsos. Quero abraçar estas pessoas que sofrem, acariciar suas cabeças e apoiá-las em meu ombro. Tento estender os braços. Não consigo. Sinto vergonha por estes “distintos” homens do Senhor. Quem é esse Senhor? Eu é que não sou. Eu é que não sou…

 

Os raivosos me ignoram e eu continuo a viver no povo. Meu corpo é preso ao ícone. Minha alma vive nas pessoas. Seu corpo é minha igreja. E assim percorro o mundo de diversas formas. Sou Cristo, Tupã, Krishna, natureza, Gaia, Ogum. Sou todos e todas.

 

Meus braços voltam à cruz. Os pregos ao meu pulso. Meu corpo ao barro. O barro à parede.

 

Estou em você. E por isso hoje eu choro.

 

 

Obs.: Há muitos anos me excomunguei e optei pelo Deus vivo, sem religião ou interesses escusos. Há muitos anos eu vivo um Deus que é apenas amor e compaixão.

Obs 2: Valeu, Tomaz! Correções feitas!

 

 

 

 

Desculpas mil…

Março 7, 2009 por Eduardo Bezerra

Amigos e amigas. Desculpem-me pela falta de atualizações no blog mas a situação é crítica. Estou recluso até o final de março construindo a qualificação do mestrado. É um período delicado onde estou procurando me direcionar para finalizar este processo e começar a pesquisa propriamente dita.

Hoje tem um texto novo e no final do mês volto ao ritmo normal e com muita coisa para falar.

Abraço grande.

Prêmio.

Janeiro 29, 2009 por Eduardo Bezerra

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No início do ano o colega Paulo Moura me chamou para uma empreitada um pouco maluca. Outra pessoa diria que não sabia qual dos dois era mais louco em aceitar: eu ou Paulo. Mas não neste caso, o louco completo foi ele que acordava e dormia com o homem todos os dias (no bom sentido, é óbvio e vocês entenderão adiante). A proposta feita a Paulo? Eleger um cara completamente desconhecido, sem nenhuma tradição política ou veiculação forte com nenhuma corrente potencialmente viável para elegê-lo. Partir do zero. Eu, particularmente, não acreditava.

Para mim, Paulo fez o convite de passar para o papel as idéias que ele tinha de segundo em segundo. Como designer, tinha que criar uma imagem para a campanha. Ele pensou a mensagem, a proposta, montou a equipe e deu forma ao plano que tinha criado para o candidato. Quem entende um pouquinho de campanha política sabe que não há coisa mais difícil que eleger um vereador. Quase metade da população nem vota e nem votará para este cargo e os eleitores que sobram estão todos divididos pelos cabos eleitorais. Só sei que é infinitamente mais fácil eleger um prefeito que um vereador.

Resumindo para explicar a saga do tal prêmio, o candidato venceu a eleição. Festa, alegria e alívio. Para mim, só. Mas Paulo tinha gostado da coisa e começou a investir a ponto de ir parar em Washington, capital dos EUA, para um encontro de profissionais do marketing político. Mas não era qualquer encontro, eram os maiores em atividade no mundo e ele foi, como a gente diz, de enxerido. Tinha gente de Obama, Sarkozy e cia.

Não vou me atrever a contar esta história pois só ouvi uma vez e ela é muito cheia de detalhes mirabolantes os quais, se contados por Chicó, as pessoas certamente duvidariam. Mas era tudo verdade. Dando mais um pulo, por pura incompetência minha em destrinchar esta saga, alguém sugeriu que ele inscrevesse o trabalho no Reed Awards, um prêmio que não era um simples prêmio. É, quase que certamente (alguém pode contestar, não é?), um dos maiores da área no mundo.

Desculpem-me mas vou resumir mais um pouco pois é por demais fabuloso. O trabalho ganhou o prêmio de melhor campanha internacional (entenda-se fora dos Estados Unidos) na categoria impressos e correspondência direta. E é isso!

Parabéns, Paulo. Sua loucura deu certo!!! Mas parabéns também a toda equipe que fez isso se tornar possível: Camila, Lorena e equipe, Klaus e a turma da internet, o pessoal da produtora de vídeo, enfim, todo mundo.

Agora, para mim foi a primeira e última campanha nestes moldes. Se Deus quiser, nunca mais.

Link com os premiados: http://politicsmagazine.com/the-2009-reed-awards/

“Muitas pessoas trabalharam duro, sozinhas ou em grupo, para tornar a nossa vida mais confortável. O alimento que comemos e as roupas que vestimos não caíram simplesmente do céu. Muitos trabalharam para produzi-los. Por esse motivo devemos ser gratos a todas as pessoas.” Sua Santidade, o Dalai Lama

O Fórum Social Mundial (e por que ninguém questiona Davos?)

Janeiro 28, 2009 por Eduardo Bezerra

240108davosfsm1O que significa conviver com a desigualdade social? Frei Betto escreveu há alguns anos atrás os “10 Mandamentos do Militante de Esquerda”. Saliento, antes de tudo, que esta idéia de esquerda nada tem haver com a cartilha hoje rezada pelo PT, PC do B ou até mesmo os pretensos baluartes Psol e PSTU. É uma esquerda ideológica, independente da veiculação partidária. Voltando à desigualdade, Frei Betto adota o método de Norberto Bobbio, o qual atesta que a direita considera a mesma tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. Um verdadeiro militante de esquerda encara-a como uma aberração a ser erradicada.

Entretanto, todos os anos os mesmos eventos acontecem: FSM e Fórum de Davos. E como tal, um sem número de artigos, reportagens, opinião e outras coisas. Porém, o que cada coisa significa realmente? O Fórum Econômico suíço é um encontro anual que acontece há 38 anos nas cidades de Davos-Klosters na Suíça. O encontro reúne chefes de estado, ministros da fazenda e autoridades dos países mais importantes do mundo. Lá, além do café, whisky, biscoitos, chocolates e muitos dólares e euros, é decidido o destino econômico do mundo como se este fosse o único problema nele existente.

O Fórum Social Mundial acontece desde o ano de 2001 e teve como primeira e mais emblemática sede a cidade de Porto Alegre. O FSM surge como uma alternativa ao economicismo de Davos. A fome pode ser curada com dinheiro? A República do Congo é uma das maiores produtoras de diamantes do mundo e, pelo que eu conheço, há poucas coisas mais valiosas no planeta. Ainda assim, o Congo é um dos países onde a fome mais flagela.

Há diferenças cruciais entre um fórum e outro. O FSM envolve todas as nações, etnias, orientações sexuais, governos, ONG, o que seja. Não importa se o país é pobre ou rico. Em Davos, afora o G-8, outros países só participam se convidados. No FSM, as discussões passam pela economia, cultura, inclusão social, saúde, emprego. Em Davos os euros, dólares, indústria, comércio, bolsa de valores. No FSM, é possível encontrar israelenses e palestinos juntos. Em Davos, o ainda impensável embargo a Cuba nem é discutido. No FSM, as pessoas caminham e participam das discussões. Em Davos elas, aquelas que compram e alimentam a roda da economia, ficam a uma distância de cinco quilômetros do foco das discussões.

É óbvio que financiar o Fórum Social Mundial não é barato. É um evento feito para mais de 120.000 participantes efetivos. O Fórum de Davos é muito mais caro e feito para não mais de cem pessoas decidirem se você vai receber o seu salário ou não. Ainda sim, os questionamentos aos custos do FSM são, no mínimo, preconceituosos. Os questionamentos aos gastos de Davos são, definitivamente, inexistentes.

Para o fórum suíço, as pessoas são gastos e custos. Para o de Belém do Pará, pessoas são pessoas. Só para lembrar, apenas 10% do dinheiro do mundo existe de verdade, o restante é moeda virtual, mercado especulativo. As pessoas, por outro lado, são de carne e osso, apesar do orkut. O tema de Davos “Confiança para potencializar o Estado no mundo”. Em Belém do Pará: “Um outro mundo é possível”. E então, cada um no seu quadrado?

O mundo em que vivo

Janeiro 20, 2009 por Eduardo Bezerra

O mundo em que vivo é louco, mas previsível.

O mundo em que vivo me assusta pela capacidade de me colocar diante de meu próprio ridículo, minha própria crueldade.

No mundo em que vivo, sua nação mais racista elege um negro para recuperar as poupanças e hipotecas que o  branco levou para a guerra. Neste local, todos enchem os olhos de lágrimas, exaltam a igualdade entre os povos, a capacidade de superar adversidades. Tudo em nome do deus-moeda. E escrito em sua moeda: “Deus abençoe!”

Neste lugar, o homem que mais poderia se beneficiar da cor de sua pele foi o mais sensato de todos e passou ao largo da hipocrisia. Assim, pela primeira vez, aquele que manipula se cala, para que os manipulados masturbem suas próprias mentes com esperanças de sua própria autoria (ou mesmo fantasia).

No mundo em que vivo, Deus é o comandante da guerra ao invés do interlocutor da paz. De um lado da cerca ostenta uma estrela de seis pontas, do outro um trançado em branco e preto. Entre eles um grupo de pessoas exatamente iguais, alimentando-se da mesma comida, bebendo da mesma bebida, respirando do mesmo ar, com sangue igualmente vermelho. Neste lugar, ainda que sejam todos humanos, do outro lado do muro seus olhos só enxergam demônios.

No mundo em que vivo o pirão é pouco e o meu vem primeiro. Neste pedaço, perpetua-se o “veja bem”, como no comercial da TV.  A ética é para a novela, onde o capítulo termina com nossa alma lavada e autorizada a esculachar nosso próximo na manhã seguinte. À noite tem outro capítulo e então castigaremos a Flora, nos sentindo na pele da injustiçada Donatela.

No mundo em que vivo, o planeta é virtual, a namorada é virtual, o sexo é virtual e o golpe causa dano real. Neste torrão esférico de água e terra, o vírus mais mortal deixou de ser o da AIDS ou o do ebola. Aqui, o vírus de computador mobiliza mais recursos e esforços.

No mundo em que vivo, os cidadãos trocaram a luta pela justiça pela luta por compensação. Aqui, neste quinhão, você pode poluir desde que plante um número “x” de árvores. Você pode destruir, desde que doe um tanto assim para a caridade. Você pode segregar, desde que isso represente o resgate pela injustiça secular dos escravizados e torturados.

No mundo em que vivo eu sou um número. Um CPF, uma carteira de reservista, um RG, um login, uma senha. No mundo em que vivo, minha conta bancária diz mais de mim que as pessoas que abraço, os rostos que beijo, as mãos que aperto. O SPC diz que sou perigoso, criminoso, inimigo, mesmo que ninguém escute a opinião de minha mãe ou meu pai ou minha esposa ou meus amigos, tudo isso a meu respeito.

No mundo em que vivo dizem que o amor mata. Por mais que tenhamos evoluído, proclamando a Declaração Universal dos Direitos (que são) do Homem (da mulher não!), as pessoas ainda são propriedades uma das outras de forma que você pode fazer com elas o que desejar. Estupra, bate, xinga, prende, tortura e, ainda assim, essa pessoa é sua por intermédio de correntes invisíveis, daquelas que só você é capaz de enxergar.

No mundo em que vivo ser criminoso compensa, ser vítima não. Aquele que rouba tem benefício, fim de semana em  casa, liberdade provisória, indulto de natal. E eu só queria um habeas corpus, daqueles que me protejam desses fazedores de mal armados com revólver ou caneta. Mais de trezentos anos depois do Padre Antônio Vieira, aquele que rouba uma galinha continua sendo um ladrão e o que rouba um império ainda é imperador.

No mundo em que vivo nada disso é novidade e, infelizmente, às vezes vai ficando mais irônico ainda. Neste torrão, coerência é moeda preciosa e solidariedade verdadeira artigo de luxo (ou de lixo, quem sabe?). Há uma dificuldade tão grande em olhar além de mim?

Perdoem-me caso discordem, cada cabeça é um mundo e este mundo é o meu. Oxalá seus mundos se mostrem mais harmoniosos, menos desiguais e muito mais fraternais. E assim eu vou tentando mudar as coisas a partir do meu planeta. Neste caminho, quem sabe meu mundo não encontra o seu e gente muda outros mundos juntos?