Que eu sou biomédico não deve ser novidade nenhuma para alguns de vocês. Por outro lado, muitos não associam minha atuação profissional à graduação que escolhi. Toda revolução proporcionada pela criação do Sistema Único de Saúde não foi suficiente para despertar entre meus pares o interesse ou a mínima curiosidade por este campo específico. E apesar de estar já a bastante tempo entre as atribuições da profissão, só em 2007, o Conselho Federal de Biomedicina reconheceu a saúde pública efetivamente como especialidade.
Entretanto, já em algumas oportunidades tenho observado o aumento da curiosidade pela área. Sempre tive a impressão que o fato de não haverem muitos professores biomédicos lecionando e compartilhando suas experiências na saúde coletiva foi um elemento dificultador de conquistas maiores. Geralmente os responsáveis por esta disciplina em nível de graduação são médicos, enfermeiros, nutricionistas e, se brincar, astrólogos e futurólogos. Tudo, menos biomédicos.
Antes de tudo é importante ressaltar que a função de um professor não é a de apenas repassar conteúdos ou provas. Estes são o primeiro referencial de meta profissional com os quais os alunos mantêm contato. Portanto, uma vivência intensa e marcante de alguma disciplina pode não levar as pessoas a optarem por esta ou aquela especialidade mas certamente não vão deixá-las alheias à sua presença. Por isso, um exemplo próximo nesta trajetória pode render frutos bem promissores.
Venho tendo oportunidade de manter uma vivência mais intensa com os alunos da graduação em virtude de algumas aulas dadas como professor convidado. É interessante observar a cara de tédio no momento o qual entro nas salas. Enquanto monto o computador e ligo o projetor, fico analisando em silêncio a reação de cada um ao contato com temas da saúde coletiva.
No último dia 30 de outubro esta reação foi um pouco distinta. Convidado para ser palestrante no 6º Congresso Alagoano de Biomedicina, 2º Congresso do Instituto Nacional de Biomedicina e 2º Encontro Regional de Estudantes de Biomedicina, encontrei um público diferente. Não entediados, não desinteressados, mas, por assim dizer, ansiosos. Não era o relato de uma pessoa estranha à realidade do biomédico. Talvez alguns tenham pensado: “Esse vai falar pra gente.”
É difícil abordar a saúde pública para biomédicos. Nem as nossas entidades representativas (como Conselhos e Sindicatos) se mobilizam por este campo tão amplo, promissor e acolhedor para nós. Para que não se ache que esta é uma crítica vazia ou ressentida, cito um fato. Talvez não haja área tão distante da biomedicina quanto a Atenção Básica. Como nós nos reconhecemos quase que exclusivamente enquanto profissionais de laboratório, parece que o SUS nos reserva apenas espaço no Apoio Diagnóstico. Entretanto há algum tempo temos profissionais reconhecidos em outra atribuição: a acupuntura. Nem assim, isso foi suficiente para nossos Conselhos brigarem pela nossa inclusão em uma área contemplada no NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família). A acupuntura só foi garantida para médicos, apesar de nossa atribuição ser assegurada por lei.
A saúde pública é um campo de coletividade, postura raramente estimulada em nossa formação. Somos um grupo forjado para o isolamento dos laboratórios de pesquisa e análises. Ensimesmados em nossos microscópios, contadores de hemácias, peagâmetros e outros bribotes, vamos levando nossa profissão e militância em silêncio muitas vezes constrangedor. Não é necessário ser um sanitarista para atuar neste campo, basta ter noção de sua responsabilidade e possibilidade de contribuição para a saúde e a sociedade.
Até esse laboratório, nossa casa imposta, é subvalorizado por nós. Transformamos este espaço de atuação em uma fábrica onde chegam icógnitas e saem certezas. Onde está o aproveitamento das informações geradas nestes locais, sobretudo quando estão localizados no ente público? O que fazemos com o infindável número de exames processados todos os dias em cidades diversas no Brasil? É justo perdermos um conjunto tão valioso de dados importantes para estruturar nossas políticas de saúde e influenciar positivamente na vida dos cidadãos e cidadãs?
São situações como estas que demonstram que, apesar de fisicamente distantes do público, não precisamos estar tão apartados assim de seus problemas e angústias. Somos parte do Sistema Único de Saúde tão fortemente quanto as demais profissões e precisamos nos fazer fortes e significativos. Só quando nos valorizamos os outros fazem o mesmo. Saliento mais uma vez que não é preciso ser um sanitarista para operar dentro da saúde pública, basta ser um profissional consciente de sua responsabilidade.
Sou um biomédico-sanitarista-professor-gerente-consultor que tenho a chance de percorrer diversos ambientes povoados ou não por outros biomédicos. Por onde vou, ressalto não ser de um grupo nem mais nem menos que outras profissões. Somos diferentes e, como tal, complementares entre nós. Lutemos pelo espaço conquistado pois o poder não é algo dado de bom grado, é brigado com muito suor. Cada espaço de luta que abrimos mão é um local que perdemos. Cada espaço perdido é mais difícil de ser reconquistado. Mesmo assim, lutemos para manter o que temos, conquistar o que não temos e reconquistar o que perdemos.
Já ia esquecendo de algo que comecei lá no alto. Ao entrar nas salas de aulas encontro alunos bastante entediados em assistir a mais uma aula de saúde pública. Mas saio feliz de lá ao ter que demorar mais um pouco respondendo perguntas de como saber mais sobre esta área e quais são as possibilidades do biomédico. Sei que nem todos vão se tornar sanitaristas, mas uma boa parte não ficará mais imune a este campo.






O que significa conviver com a desigualdade social? Frei Betto escreveu há alguns anos atrás os “10 Mandamentos do Militante de Esquerda”. Saliento, antes de tudo, que esta idéia de esquerda nada tem haver com a cartilha hoje rezada pelo PT, PC do B ou até mesmo os pretensos baluartes Psol e PSTU. É uma esquerda ideológica, independente da veiculação partidária. Voltando à desigualdade, Frei Betto adota o método de Norberto Bobbio, o qual atesta que a direita considera a mesma tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. Um verdadeiro militante de esquerda encara-a como uma aberração a ser erradicada.